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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço


Lobo na serra de Soajo

Piquenique nas Fontes, em Adrão

Último piquenique da Maria Bondeira comigo

Último sorriso da Maria Bondeira para mim


01.05.16

Caminhar na Assureira


Ventor

Ontem, tropecei em fotos da Assureira. Caminhei foto sobre foto. Primeiro a correr, depois devagar e hoje voltei a fazer essa caminhada fotográfica. Descobri assim, mais uma vez, que o Facebook tem muito para nos dar. O Facebook é, realmente, uma plataforma de amigos e a amizade será, certamente, o que de melhor podemos tirar desta plataforma.

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 Assureira - Assureira das Portas. Tenho saudades destas escadas. Há mais de 55 anos que não as subo. Estas ou outras. Foto de Teresa Araújo

Vamos tropeçando neste e naquele, vamos vendo com os nossos olhos o que melhor nos toca. E, claro está, vamos revendo o passado através de fotos, com as quais revemos trilhos, cantos e recantos que fazem com que a nostalgia nos vá roendo por dentro e nos faz contar cada passo que em tempos remotos fomos dando.

Todas as lembranças que eu tenho da Assureira e permanecem intocáveis no meu cérebro, vão-me roendo as entranhas que lá se formaram, primeiro agarrado às saias da minha mãe e demais família, depois, passo a passo ou em correrias, sobre as suas lajes, como um cabrito mas chutando a pedra e arrancando unhas e, por entre os seus carvalhos, como um druida.

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Esta Assureira, uma branda de Adrão, já foi uma terra de sonhos. Foto de Teresa Araújo

Ontem, à noite, noite dentro, tropecei nas fotos de Teresa Araújo e caminhei nos trilhos inesquecíveis de, salvo excepções, mais de meio século. Mas não foi só olhar fotos! Foram os momentos que me fizeram recordar. É que há duas Assureiras. A minha e a nossa! A minha é a Assureira dos Franqueiras (e não só) e a nossa é toda a Assureira. Ontem caminhei pela Assureira da tia Luísa, do ti Emílio do meu amigo Ferrada, dos Joãos (o que Deus tem e o outro que andará "perdido", algures, por esse mundo). A Assureira da tia Caridade e do ti Zé Ribeiro e de toda a gente que cheirou por lá os belos perfumes de Maio, do láudano dos carvalhos e de tanta coisa bonita.

Mas eu recordei o sal que a minha mãe, com contra-peso e medida punha no pote do "caldo". Eu achei que ela estava com unhas de fome e, pela calada, atirei com o sal para o pote. As pessoas estavam a trabalhar tanto que não podiam passar fome mas safaram-se as sardinhas que a minha mãe tinha comprado à tia Pedreira. Estraguei a sopa completamente. E, como eu era pequenito, a minha mãe foi à tia Luísa, ver se tinha leite para mim. Ela deu leite para fazer um caldo de leite, à pressa, para toda a gente. "Teresa, não batas no moço"! «Tive vontade de o estrafegar mas este, ao pé dele, ninguém morre de fome. Tenho a certeza que, se houver gente a morrer de fome, ele é o primeiro". Não sei que poderia eu dizer naquele tempo mas, hoje, também não quero ninguém a morrer salgado

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Assureira, por aqui não faço uma caminhada há mais de 55 anos - foto de Teresa Araújo

Como eu gostava da tia Luísa da Assureira e como me sentia bem sempre que por lá andava. Ontem a Teresa Araújo deu-me a oportunidade de retroceder no tempo. Mas ela não conheceu a Assureira que eu conheci. Tudo limpo, sem matos, sem enormes quantidades de giesta, sem silvas, sem tojos de toda a espécie e maiores que nós. As cabras, as ovelhas, as vacas, os matos para as suas cortes, as lenhas para o borralho, a azáfama diária das pessoas, destruíam isso tudo. Nesse tempo não seria necessário pedir licença aos matos para deixarem a objectiva ir ao encontro dos seus alvos. Teria tido outras oportunidades de fotografar os espantalhos da tia Custódia, na Portelinha, para a raposa e os pássaros não lhe irem às espigas e às uvas, tempos esses em que esses espantalhos assustariam tanto as raposas como me assustavam a mim.

Só quem viveu a Assureira, nesses tempos, saberá sempre como terá sido o Éden de que a Bíblia nos fala

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente