Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Adrão, na Grande Caminhada do Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão é o meu berço. É um berço de granito e os lençóis são bordados com as mais belas flores de ericas, de carquejas, de urzes e muitas outras. Caminhem comigo e vejam

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão é o meu berço. É um berço de granito e os lençóis são bordados com as mais belas flores de ericas, de carquejas, de urzes e muitas outras. Caminhem comigo e vejam

Adrão, na Grande Caminhada do Ventor

A foto do cabeçalho mostra uma creche de vitelos no alto da Derrilheira - serra de Soajo

Podem ver aqui todos os Links dos meus Blogs. É só abrir e espreitar



Lobo na serra de Soajo

Piquenique nas Fontes, em Adrão

Último piquenique da Maria Bondeira comigo

Último sorriso da Maria Bondeira para mim

27
Ago18

A Casa do Ti Emílio

Luiz Franqueira - Ventor

 

A casa do ti Emílio, na Assureira, antes era a casa da tia Luísa.

 

2018-08-24 09-50-18_1280.JPG

 

 O mato em redor quase engole a casa

 

2018-08-24 09-51-42_1283.JPG

 

Portas escancaradas como sempre mas sem ninguém para nos receber

 

A casa do ti Emílio, se a minha memória ainda está operacional, era a casa da tia Luísa que ele veio a renovar ou a reconstruir completamente. Não sei porque era muito novo mas acho que as escadas são as mesmas ou muito parecidas. Quando eu era pequenino, mesmo pequenino, também caminhei por essa casa, a velha e sei que a tia Luísa era muito minha amiga.

 

2018-08-24 10-03-41_1303.JPG

 

Esta é a parte de trás virada para as lavouras que o mato não deixa ver

 

Já falei por aí de um Maio, nos anos 50, bem no princípio que a minha mãe tinha algumas mulheres a trabalhar para fazermos o Maio na Assureira. Parece mentira mas sei que eram sardinhas, compradas à tia Pedreira de Soajo, assadas com pão e um caldo de couves, batatas e feijão, ... um caldo. recordo-me de ver a minha mãe a fazer cálculos com a mão para pôr o sal no caldo ou sopa se preferirem. No fim tirou mais um bocadinho de sal e meteu dentro do pote, um pote de ferro. Ela não estava habituada a fazer sopa para tanta gente e precisava mesmo de calcular.

 

café.jpg

 

Para mim o sal devia ser posto assim, em duas mãos

 

Eu deixei ela virar costas e fui ao saleiro e meti sal quanto bastasse lá para dentro porque aquela gente precisava de comer e não de uma "mão de fome, em sal". Claro que estraguei aquilo tudo e desde então apercebi-me que a fartura também mata! Mas toda aquela gente estava preocupada era com a sopinha do Luiz e eu, normalmente, gostava era de caldo de leite.

 

 

2018-08-24 10-17-51_1332.jpg

 

Esta é parte das casas de granito que nos contam histórias da Assureira das Portas

 

A minha mãe foi a correr à tia Luísa ver se ela tinha leite para mim. A tia Luísa resolveu o problema para mim e para todos. Fez um caldo de leite para todos e evitou que a minha mãe perdesse tempo a fazer outro caldo (sopa). Toda a gente comeu sardinha assada e caldo de leite. Eu gostava imenso daquela velhota, não pelo caldo de leite mas por tudo que ela significava para mim de tão boa pessoa que era. Quando eu era ainda um puto, a gente de Adrão foi velar o seu corpo à sua casa na Assureira. Eu não sei quantos anos teria mas quis ir e já não tinha quem fosse comigo. As pessoas revezavam-se. Lembrei-me que o meu pai não tinha medo de andar de noite e chegara a hora de eu também não ter. Fui sozinho, já pela noite dentro. Ficou tudo admirado verem um puto chegar só, para participar num mundo que não era o dele. Mas era! Eu sabia que nunca mais veria a tia Luísa.

 

2018-08-24 10-17-55_1333.jpg

 

 Para a Celeste tudo isto é novo. Ela admira estas alcatifas de pedra e quantos por ali terão passado, descalços ou calçados

 

Por isso caminhei na Assureira, no dia 24 de Agosto de 2018, com tudo isso na cabeça e a lamentar não ter feito a vontade ao ti Emílio quando um dia, quando eu fui de visita a Adrão e ele me convidou para ir à Assureira provar o seu precioso vinho americano. Passaram-se uns aninhos e nunca mais o vi. Mas fui lá ver a sua casa e o seu lagar anos depois. Ainda lá estavam videiras, a dizer-me: «já é tarde Ventor»!

 

2018-08-24 10-39-49_1340.jpg

 

Até parece que está gente em casa. Estará?

 

Caminhei na Assureira a lembrar-me de um tio meu, quando em Colares vi uma moça de Adrão a caminhar na linha do eléctrico: «aquela moça é de Adrão, chama-se Rosa Cortez»! "Sai do carro e vai lá cumprimenta-la". «Não, fica para uma próxima vez, com mais calma». Eu sabia que ele estava com pressa. "Nunca se deixa nada para uma próxima vez. A próxima vez pode nunca mais chegar». Essa nunca mais chegou, a do ti Emílio nunca mais chegou, assim como tantas outras.

 

2018-08-24 10-03-12_1302.jpg

 

Nunca provei o vinho que saiu deste lagar

 

Por isso vos digo: «nunca deixem nada para depois». Olhem o que eu digo e não o que eu faço. Por deixar para a próxima, nunca provei o vinho que o ti Emílio me disse ser uma preciosidade e perdi a oportunidade de conhecer melhor o homem que gostava tanto da Assureira que fez ali, a sua grande casa.

 

2018-08-24 09-55-57_1290.jpg

 

Nem provei do pão que saiu deste forno

 

2018-08-24 09-52-23_1284.jpg

 

Também nunca provei do vinho que saiu destes barris ou de outros

 

Antes era um puto e não bebia vinho, depois parti e não acompanhei meia dúzia de anos do progresso desta casa. Depois foi a chegada da penumbra e a queda na escuridão. Não ... não foi nenhum tremor de terra nem vulcão destruidor ou os dois juntos, como em Pompeia, foi isso sim, algo mais lento mas também destruidor. A esse cataclismo para a Assureira, chamamos DIÁSPORA.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

Ventor, nas suas caminhadas | Divulga também a tua página


luis.jpg

Luiz Franqueira e o Quico

Sou eu e o meu Quico. Éramos amigos inseparáveis. O Senhor da Esfera levou-mo e, três anos depois, o mesmo Senhor da Esfera, enviou-me o Pilantras

Ticas2.jpg

Pilantras - o Ticas

O Pilantras também é lindo. A seu modo, já não fica a dever nada ao Quico. O Quico corria a meu lado a ver qual chegava primeiro ao computador. O Pilantras vai pela sucapa e ocupa a cadeira


Este é o Link da minha

Grande Caminhada

Caminharei por aqui, hoje e sempre, com o meu velho Quico na cabeça e o meu Ticas a meu lado

Ticas1.jpg

Ticas


O Cão Sabujo de Soajp

2017-09-15 14-22-58_0096.jpg

Este é o cão Sabujo de Soajo

Este cão é aquele a que hoje chamam o cão de Castro Laboreiro. Era o cão que as gentes de Soajo, segundo rezam as suas histórias e o Prof. Jorge Lage, pagavam em tributo aos reis de Portugal. Esse cão acompanhava os monteiros de Soajo nas guardas dos rebanhos e nas montarias reais


lobo-iberico.jpg

O lobo-ibérico

Irei falar, por aqui da serra de Soajo e também dos seus lobos e das suas montarias ao lobo, as únicas em que participei como observador, ainda criança. Sabemos que o lobo ibérico é uma subespécie do lobo cinzento mas também sabemos que é um animal fabuloso


DSC03018.jpg

Esta Gentiana azul, esta bela flor azul, apareceu na Corga da Vagem, depois de não haver cabras por lá

Mais sobre mim

foto do autor