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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

 

 
Lobo na serra de Soajo
 
Piquenique nas Fontes, em Adrão
 
Último piquenique comigo
 
Último sorriso para mim

20.11.12

Sonhando ...


Ventor

... sonhando, fui passear por Adrão. Mais uma das minhas caminhadas de sonhos!

Não tenho sonhado, já há muito tempo, com aquele meu belo cavalo de sonhos - o Antar. O Antar, quando o meu Quico andava por aqui, era uma presença constante nos meus sonhos, depois sumiu.

As últimas imagens que tenho dele, bem fixas, na minha mente, é a visão da sua cabeça, de olhos fixos em mim, relinchando, a chamar-me para entrar e a minha mãe toda bonita a mandar-me de volta para este nosso mundo porque o outro ainda não era o meu.

Não me recordo de outro sonho com o Antar. Acho que esse foi mesmo o último até hoje.

Também sonhei pouco com o meu Quico mas, nas últimas noites, sonhei com ele duas noites seguidas.

No primeiro sonho, o Quico apareceu-me para me pedir para tratar o Pilantras como o tratei a ele. Caminhava entre os fetos e as urzes, nas minhas Montanhas Lindas, direito a mim, para me dizer que estava contente por eu voltar a ter um dos seus, junto de mim. Estivemos juntos, falamos de tudo e da sua rapaziada que, por aqui, continuam a ser mortos de várias formas, atropelados ou mal tratados. Encontrei morta a gatinha que julgo ser a mãe do Pilantras porque eles eram a chapa, um do outro. Ela morta e o Pilantras com a perna direita partida, pensávamos nós, atormentado com o seu mundo escondido de todos mas que, apareceu ao som daquela que lhe dava de comer para ir sobrevivendo. Coxinho, com a patinha no ar, sobre três patas. Aproximei-me e só disse: "isso está mau Pilantras"! Olhando-me nos olhos, nos seus estava a rsposta. «Somos uns desgraçados, quase ninguém nos liga. Gostava de saber porque há tantos humanos que não podem connosco. Que terá havido, Ventor, entre os meus antepassados e toda esta gente que não pode com gatos»! "Não é só com gatos, Pilantras. É com todos os animais e até com eles próprios. Todos eles vivem no seu Universo. Estás perante o pior dos animais quando são atingidos pela maldade. É o único animal que é capaz de fabricar armas para matar os outros animais e a eles próprios. A maioria tem todos os males enraizados neles"! 

O Pilantras, uma das belezas do Ventor

Pedi à sua amiga para me ir buscar uma mantinha, apanhei o Pilantras, enrolei-o na mantinha e levei-o para casa. Comeu que se fartou. No dia seguinte, levei-o a um Hospital dos Animais, em Lisboa, onde trataram dele, preparando-o para oferecermos a quem o quisesse. Eu era capaz de o oferecer a quem soubesse tratar dele e, se fosse caso disso, até pagaria as despesas a quem o levasse. Porém, depois de o conhecer e do pedido do meu Quico, já não deixará o nosso convívio mesmo sabendo o perigo que ele representa para mim.

O Pilantras é uma beleza da Natureza!

Na noite seguinte, voltei a sonhar com o Quico! Caminhava nas minhas Montanhas Lindas cheio de calor e sede, sem fontes de onde escorressem gotas de água que fosse, para molhar os lábios.

Comecei a ver uma língua de areias douradas por entre os fetos e as urzes. No centro dessa areia, corria da minha direita para a minha esquerda, água pura, limpinha e, do lado contrário dessa água caminhava o meu Quico com aquele grande rabo a vassourar a areia, a olhar-me muito sério. "Bebe água, Ventor, que esta é pura. Foram as Ninfas que fizeram esta fonte para tu matares a sede".

Onde estão elas, Quico? "O Senhor da Esfera não deixa que as vejas, só me podes ver a mim. Elas estão a ver-te e dizem-me que estás a passar um mau bocado mas ele vai passar". E estava mesmo!

Acabei de perder de vista o Quico, a areia dourada, a água, os fetos e as urzes. Levantei-me, fiz uma festa ao Pilantras e fui à cozinha beber água fresca.

Quico, o gato que o Ventor nunca esquece

Atacado pela gripe, desestabilizado o meu sistema imunitário, a presença do Pilantras e, a noite seguinte transformara-se no mau momento de que o Quico me falara, em sonhos.

Todo o meu sistema respiratório baldou e o processo de meter ar, cá para dentro, é utilizar toda a força ainda disponível. O barulho é de tal ordem que dá para acordar todos os quarteirões em redor, se vivesse num centro, cercado por todos os lados.

Assim, dormindo e sonhando ou acordado, desta vez, por duas vezes, caminhei, mais uma vez, pelas minhas Montanhas Lindas, em redor de Adrão, sem fontes, sem Naia, sem Muranho e sem água. Mas, mesmo sendo em sonhos, deu para perceber que a nossa passagem por este mundo é muito mais complexa do que parece.

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente

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