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Adrão, na Grande Caminhada do Ventor

Adrão, na Grande Caminhada do Ventor


Piquenique nas Fontes, em Adrão

Último piquenique da Maria Bondeira comigo

Último sorriso da Maria Bondeira para mim


Regresso a Casa, 2015


Clicando nesta foto, podem ver as restantes que compõem o Album Regresso a Casa, com fotos dessa minha passagem por Adrão no meu regresso, rumo a Lisboa, em 2015. Também podem clicar na setinha do Flicker e ver as fotos em slideshow


09
Mai12

A Serra de Soajo

Ventor

Quando olho para trás, recordo e vejo a minha serra - a serra de Soajo!

Por isso, recordo e relembro o meu berço. O meu berço de granito! Recordo que, nesse tempo, não sabia quem era David, nem sabia quem era o Golias mas, relembro que, então, sem conhecer esses dois, eu também tinha uma funda! Tinha uma funda mas não tinha nenhum Golias para abater! Porque não tinha filisteus nem israelitas, em armas. Não tinha desertos a defender nem palácios com colunas de mármore, como Gaza! Tinha casas simples de granito onde o gado era rei! Tinha um Éden feito de flores simples, onde predominava a flor da Erica que, na sua pintura rosa, nos inspirava à glorificação dos deuses.

 

Subia da Açoreira pelo Barroco, com as minhas vacas que adoravam ir deitar-se, entre os fetos, no Poulo da Chãe do Ruivo. Comiam carrascas e ervas, torciam ao Poulo da Fraga, dirigiam-se pela encosta da Centeeira, comendo ervas e carrascas rosas até atingirmos esse Poulo de fetos e, pelo calor das manhãs quentes, nesse monte ensolarado, elas deitavam-se entre os fetos. Atrás delas, eu observava as carrascas rosadas por onde pululavam as abelhas, na azáfama de apanhar o néctar para fazerem o mel e, entre as flores rosadas, subia até mim a melodia daquela orquestra que nunca mais esqueço.

 

No Poulo da Chãe do Ruivo, as minhas vacas descansavam, entre a sombra dos fetos e eu subia até á água que brotava na tapada do ti João Perricho onde comia o meu bacalhau, presunto ou chouriço com pão e, voltava ao tal poulo, onde fazia festas às minhas vacas deitadas que, começavam a levantar-se e espalhavam-se, monte acima, enquanto eu, com o meu cinto e umas pedras arredondadas, utilizava a tal funda, fazendo bater a pedra no poulo que, depois, partia a toda a velocidade fazendo um "róóóôôommmmm" tão intenso que parecia os aviões que, nos seus voos experimentais, tal como eu, de vez em quando, subiam as minhas montanhas lindas.

 

 

Belezas de sempre, pelas minhas Montanhas Lindas 

 

As imagens que tenho desses tempos e desses troços das minhas caminhadas, são as mais lindas da minha vida e estão gravadas no meu cérebro tal como as imagens da gruta de Altamira estão gravadas nas rochas. Imagens lindas como essas da Centeeira florida de cor rosa, só encontrei na Serra do Avô. Depois disso, apenas voltei a ver carrascas floridas mas, nunca mais espaços abertos, rosados, como nesses tempos.

 

É recordando que me apetece falar das coisas. Falar das minhas vacas, das ovelhas da Açoreira, das ovelhas da tia Custódia, pela encosta do Gondomil cheia de urzes floridas das frases de então, "Luis, vira-me as ovelhas para baixo", da raposa a tentar apanhar uma ovelha entre as urzes floridas e da sua atrapalhação quando eu já estava em cima dela, quando já ela tentava apanhar o pescoço à ovelha. Tudo isto nos tempos em que eu glorificava a corrida, nos montes mais lindos do meu mundo.

 

Desses montes da Açoreira, eu olhava, do outro lado, lá por cima de Adrão, o Alto da Derrilheira e, então, limitava-me a pensar que, um dia, chegaria lá. Eu adorava os montes da Açoreira mas, com o tempo, já mais crescidinho, passei a levar as vacas para a Chãe do Boi e, quando o meu amigo Apolo aquecia as Primaveras, as vacas começavam a ficar fora e a subir até à Naia, depois até ao Muranho e por fim, já verão fora, a Corga da Vagem, o Curral do Pai, ... Acabado de sair do berço, conquistei a minha serra, palmo a palmo, metro a metro, agarrado ao rabo das minhas vacas! E, para mim, essa conquista, foi feita nos nossos trilhos da Glória, onde os deuses me falavam por baixo dos meus pés.

 

Com o tempo, aprendi a recordar essas caminhadas fabulosas e a nunca esquecer as belezas desse meu mundo.

Numa determinada altura aceitei que as serras de Soajo e a Amarela, fossem absorvidas por esse nome colectivo de Parque Nacional da Peneda-Gerês. O Parque tinha de ter um nome e era aceitável que fosse utilizada a lógia orográfica das serras que o compõem - Peneda-Gerês!

Porém, não aceito que uma cambada de pilantras, armados em sabichões, passem a chamar à serra de Soajo, serra da Peneda! Cada macaco no seu galho!

 

Fazemos parte de um país habituado a deturpar tudo. Até a porcaria de uma telenovela, produzida e realizada por Nabos, se propôs subverter os meios para atingir o seu fim.

Quando diziam, "vamos para a Peneda", apenas queriam dizer, vamos para os Arcos! Quando diziam que iam para a serra da Peneda, queriam dizer que iam para a serra de Soajo. São gente de tão fraca índole que até descobriram que os lobos iam aos poleiros às galinhas! Porém, podem inventar tudo, menos outro nome para a serra de Soajo! Podem caminhar nas fantasias da incompetência, sempre que queiram, mas não admito que troquem o nome à minha serra.

 

 

A minha companheira de caminhadas pela serra de Soajo, nos meses de Agosto

 

Estou farto de doutores e engenheiros pindéricos, cheios de palas. Colocaram-lhe palas nos olhos e só olham em frente, esquecendo-se dos lados e da rectaguarda. Conheci muitos assim! Com o canudo mas, com uma pobreza de espírito atroz que me parecia terem apenas serradura na cabeça! Não é por acaso que o nosso país tem andado à deriva e parece, assim continuará, eternamente.

Podem governar mal. Podem encher-se à custa do povo e em nome do povo. Se o povo deixa, nada tenho a ver com isso e se entram sem nada e todos saem bem abastecidos, como dizia uma noite destas, o Manuel Monteiro, isso só acontece porque o povo, na sua boa fé, lhes permite que assim seja. Contra isso não posso nada! Todos esses pindéricos podem fazer tudo mas, junto de mim, não podem trocar o nome à minha serra!

 

Já caminhei em serras com quase o dobro da altura da serra de Soajo mas, a Pedrada, será sempre, para mim, o meu Outeiro Maior, tal como vem nas cartas militares.

Há muita gente que chama a Adrão, a terra da fome, do frio, da escravatura ... De facto foi uma terra que não foi capaz de dar de comer a todos os seus filhos, tal como todas as terras de Portugal mas, para mim, Adrão conseguiu o milagre de nunca me pôr contra ela. Adrão teve o dom de me fazer esquecer tudo o que tive de mau por lá e apenas registei tudo o que por lá tive de bom! O mesmo me aconteceu com Moçambique. Cheguei, olhei e gostei. Quase não me recordo de nada que tenha sido mau. Limitei-me a encostar a tristeza num canto do sótão e esquecê-la.

Quando a minha vida não corre bem, só há um lamento que não me larga. É este: "se calhar, nunca mais vou conseguir subir à Pedrada"!

 

 

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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