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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço


Lobo na serra de Soajo

Piquenique nas Fontes, em Adrão

Último piquenique da Maria Bondeira comigo

Último sorriso da Maria Bondeira para mim


29.08.18

Caminhar na Assureira, 2018


Ventor

Caminhar na Assureira, em Agosto de 2018, não serviu só para matar saudades, para voltar a observar as suas lages e para olhar as paisagens cobertas de matos, silvas, tojos arnais ou pica-ratos (eu não sou rato e picam-me bem), giestas, etç. Caminhar na Assureira também deu para fazer outras observações.

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Aqui estava o bufo, mais provável no carvalho, bem alto, do que nas paredes da corte

Eu tive na minha recepção um pardal, uma toutinegra, uma lagartixa e um morcego pendurado no fio de uma lâmpada eléctrica, na casa do ti Emílio que Deus tem. Não vi o Bufo mas sei que estava lá, bem perto de nós ou na sombra do carvalho ou num buraco das ruinas de uma casa de granito cheio de musgo e junto ao carvalho.

Só eu é que o ouvi. Devia estar chateado por ficarmos ali a observar a influência que meio século teve na caminhada da nossa gente. Foram três pios do Bufo, se calhar a avisar a companheira ou companheiro que não passávamos de uns chatos. Há muitos anos atrás eu ouvia o Bufo na Assureira mas sempre ao chegar da noite, quando já saíamos a caminho do eido, ao lusco-fusco ou já de noite.

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Foto tirada do Pixabay

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Foto tirada do Pixabay. É grande este bicharoco. De noite ele vence e mata a águia que não vê. De dia é a águia que o mata a ele. Assim existe equilíbrio entre os dois rapaces

Não ouvi o arrulhar das rolas ou dos pombos bravos, nem o grasnar dos gaios que na Assureira nunca me tinham faltado até 2006 a última vez que lá tinha ido. Em 2006 um gaio ficou sarapantado quando ia beber água à poça da mina e deparou comigo. Vimos os detritos da corça que tal como os javalis andarão fugidos pelo mato ao sentirem e cheirarem as pessoas por perto.

Dei por falta desses meus amigos de penas a que chamo penudos e não foi só na Assureira. Dei por falta dos chascos e dos cartaxos esvoaçando à nossa fente, quando subimos à Pedrada. Mas, também, em Arcos de Valdevez, apesar de ter fotografado o meu amigo melro de água, achei existirem poucas pegas negras, pardais, cartaxos e outros pássaros que todos os Agostos tenho visto com alguma abundância.

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Cartaxo-comum, nossos amigos a caminho da Pedrada

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Chasco, nossos amigos a caminho da Pedrada

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Chasco pequeno

Quando observava a ponte e o rio de Adrão em Arriba dos Moinhos, ainda sonhei que passasse por ali o guarda-rios, meu velho companheiro de há 57 anos para atrás. Achei piada, o grupo Desportivo das Pescas de Soajo ou lá como se chama, querer transformar o rio de Adrão num belíssimo centro de pesca às trutas.

Com o matagal que avassala o rio, as trutas não subirão de maneira nenhuma. Mas fazer placas não custa nada. Uns cêntimos, uma borradela e a placa está feita. Vamos lá coloca-la. Quem viu aquele rio cheio de trutas como eu vi, plantar placas e deixar andar deve ser um trabalho muito frutuoso! Deu-me muita vontade de rir. Se realmente houver pescadores em Soajo, não devem ganhar para os anzóis. Primeiro deviam limpar o rio. Não custa nada! Levem a cana numa mão e a foice na outra e então sim, as trutas passarão a subir o rio.

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  Lagartixa, foto pixamania. Haviam muitas na Assureira. Hoje não se vêm

Mete dó ter conhecido aquele rio e observa-lo hoje. Será que há trutas no rio de Adrão? Quando antigamente íamos da Assureira para o eido, o poço do moinho de Arriba dos Moinhos, estava sempre cheio de trutas e eu corria à frente dos homens caladinho só para as conseguir olhar.

Se calhar hoje nem me acreditam mas tirei duas trutas que ficaram a entupir a leva de água para fazer rodar o rodízio do moinho da tia Bondeira. Virei a água para o rio e fui lá apanhar as trutas que pareciam salmões. Caíram e ficaram aos saltos até eu as apanhar no meio das pedras, por baixo do moinho. O mais difícil foi a cobra negra!

Houve duas que seguiram o rego para regar o campo da Assureira de tão gulosas que eram que foram apanhadas pela minha tia Joaquina aos saltos no meio do milho, quando ela regava. Hoje não há nada disso. Hoje não temos trutas para ver nos poços, quanto mais para irem centenas de metros atrás de minhocas até ao milho. Mas há um Clube Desportivo de Pescas. Espero que tenham sorte mas têm de fazer por isso. A sorte protege os audazes!

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente

27.08.18

A Casa do Ti Emílio


Ventor

A casa do ti Emílio, na Assureira, antes era a casa da tia Luísa.

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 O mato em redor quase engole a casa

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Portas escancaradas como sempre mas sem ninguém para nos receber

A casa do ti Emílio, se a minha memória ainda está operacional, era a casa da tia Luísa que ele veio a renovar ou a reconstruir completamente. Não sei porque era muito novo mas acho que as escadas são as mesmas ou muito parecidas. Quando eu era pequenino, mesmo pequenino, também caminhei por essa casa, a velha e sei que a tia Luísa era muito minha amiga.

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Esta é a parte de trás virada para as lavouras que o mato não deixa ver

Já falei por aí de um Maio, nos anos 50, bem no princípio que a minha mãe tinha algumas mulheres a trabalhar para fazermos o Maio na Assureira. Parece mentira mas sei que eram sardinhas, compradas à tia Pedreira de Soajo, assadas com pão e um caldo de couves, batatas e feijão, ... um caldo. recordo-me de ver a minha mãe a fazer cálculos com a mão para pôr o sal no caldo ou sopa se preferirem. No fim tirou mais um bocadinho de sal e meteu dentro do pote, um pote de ferro. Ela não estava habituada a fazer sopa para tanta gente e precisava mesmo de calcular.

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Para mim o sal devia ser posto assim, em duas mãos

Eu deixei ela virar costas e fui ao saleiro e meti sal quanto bastasse lá para dentro porque aquela gente precisava de comer e não de uma "mão de fome, em sal". Claro que estraguei aquilo tudo e desde então apercebi-me que a fartura também mata! Mas toda aquela gente estava preocupada era com a sopinha do Luiz e eu, normalmente, gostava era de caldo de leite.

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Esta é parte das casas de granito que nos contam histórias da Assureira das Portas

A minha mãe foi a correr à tia Luísa ver se ela tinha leite para mim. A tia Luísa resolveu o problema para mim e para todos. Fez um caldo de leite para todos e evitou que a minha mãe perdesse tempo a fazer outro caldo (sopa). Toda a gente comeu sardinha assada e caldo de leite. Eu gostava imenso daquela velhota, não pelo caldo de leite mas por tudo que ela significava para mim de tão boa pessoa que era. Quando eu era ainda um puto, a gente de Adrão foi velar o seu corpo à sua casa na Assureira. Eu não sei quantos anos teria mas quis ir e já não tinha quem fosse comigo. As pessoas revezavam-se. Lembrei-me que o meu pai não tinha medo de andar de noite e chegara a hora de eu também não ter. Fui sozinho, já pela noite dentro. Ficou tudo admirado verem um puto chegar só, para participar num mundo que não era o dele. Mas era! Eu sabia que nunca mais veria a tia Luísa.

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 Para a Celeste tudo isto é novo. Ela admira estas alcatifas de pedra e quantos por ali terão passado, descalços ou calçados

Por isso caminhei na Assureira, no dia 24 de Agosto de 2018, com tudo isso na cabeça e a lamentar não ter feito a vontade ao ti Emílio quando um dia, quando eu fui de visita a Adrão e ele me convidou para ir à Assureira provar o seu precioso vinho americano. Passaram-se uns aninhos e nunca mais o vi. Mas fui lá ver a sua casa e o seu lagar anos depois. Ainda lá estavam videiras, a dizer-me: «já é tarde Ventor»!

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Até parece que está gente em casa. Estará?

Caminhei na Assureira a lembrar-me de um tio meu, quando em Colares vi uma moça de Adrão a caminhar na linha do eléctrico: «aquela moça é de Adrão, chama-se Rosa Cortez»! "Sai do carro e vai lá cumprimenta-la". «Não, fica para uma próxima vez, com mais calma». Eu sabia que ele estava com pressa. "Nunca se deixa nada para uma próxima vez. A próxima vez pode nunca mais chegar». Essa nunca mais chegou, a do ti Emílio nunca mais chegou, assim como tantas outras.

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Nunca provei o vinho que saiu deste lagar

Por isso vos digo: «nunca deixem nada para depois». Olhem o que eu digo e não o que eu faço. Por deixar para a próxima, nunca provei o vinho que o ti Emílio me disse ser uma preciosidade e perdi a oportunidade de conhecer melhor o homem que gostava tanto da Assureira que fez ali, a sua grande casa.

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Nem provei do pão que saiu deste forno

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Também nunca provei do vinho que saiu destes barris ou de outros

Antes era um puto e não bebia vinho, depois parti e não acompanhei meia dúzia de anos do progresso desta casa. Depois foi a chegada da penumbra e a queda na escuridão. Não ... não foi nenhum tremor de terra nem vulcão destruidor ou os dois juntos, como em Pompeia, foi isso sim, algo mais lento mas também destruidor. A esse cataclismo para a Assureira, chamamos DIÁSPORA.

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente

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