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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

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Nasci em Adrão e, desde muito novo, iniciei as minhas caminhadas pela minha serra - a serra de Soajo. Em 2009 ouvi falar de uma cruz que tinha sido colocada no Alto da Derrilheira. Numa caminhada realizada com os meus companheiros e amigos da serra de Soajo, Luiz Perricho, António Branco e José Manuel Gameiro, fomos recebidos no nosso mais belo Miradouro como mostra esta foto. Algumas das vacas da serra, receberam-nos e, na sua mente, terão dito: «Contempla Ventor, mais uma vez, toda esta beleza que nunca esqueces. Este é o teu mundo e é nele que o Senhor da Esfera te aguarda». Tem sido sempre assim, antes e depois da Cruz

Se querem conhecer Adrão, Soajo e a nossa serra, podem caminhar pelos meus posts. Para já, só vos digo que fica no Alto Minho

12.10.16

Não, à Escola!


Ventor

Em 1954, andava o Ventor na 2ª Classe, pequenito, subiu de Adrão à Corga Grande com as suas vacas, de manhãzinha, como sempre fazia por essa altura, Primavera.

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Este mês de Junho (2016), caminhei, apressadamente, sobre flores azuis, em Adrão

Como já estava atrasado (o relógio era o sol) desceu os montes numa correria para chegar à escola do Senhor da Paz, sem atrasos.

Chegou a casa, pegou na sacola com a lousa e algo mais e iniciou uma corrida na Quelha da Costa para não se atrasar. Mas a conclusão era uma: o atraso já era evidente e, quando chegasse, a professora do Beleiral, iria pegar na régua e aplica-la nas minhas mãos já fartas de trabalho.

Espreitei sobre a parede para as lavouras à minha esquerda, vi as flores por entre as ervas. Flores lindas, malmequeres e margaridas e muitas outras e, para meu encanto, nos socalcos das lavouras já nasciam as dedaleiras.

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Tal como há muitos anos atrás, caminhei sobre o verde e as flores rosadas

Não levei muito tempo a pensar! Se fosse para a escola, levaria umas palmatorias injustas, pensava eu, caso não fosse, o mais grave que me poderia acontecer seria levar uma tareia da minha mãe. O meu amigo Apolo espreitava-me de cima, já bem levantado, sobre os montes lá em frente e parecia rir-se. Sentei-me no meio das ervas verdes e as múltiplas flores que, em meu redor, me observavam. Estava decidido! Esse dia seria para, por minha conta, dedicar à Primavera e às flores, suas belezas. Peguei na sacola, encostei-a à parede da lavoura e pulei, corri, dei cambalhotas, apanhei flores e mandei a escola às favas. Quando já estava cansado, sentei-me e comecei a apanhar flores. Parecia que elas me gritavam para não as matar e desisti. Desisti tanto que ainda hoje não gosto de apanhar flores. Nisso, a minha máquina é uma preciosa ajuda!

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Também caminhei sobre as flores brancas

A máquina apanha-as sem as estragar e, depois, com calma, eu observo-as como se ainda lá estivesse a clicar. No dia seguinte, ou no outro, ou ainda noutro, as flores lá continuam para mim e para quem mais gostar de as observar. A malta da escola chegava para o almoço e eu continuei só, entre as flores. Quando eles regressaram à escola, fui eu comer o que tinha para o almoço.

Depois voltei para o mesmo sítio, as lavouras de Adrão à esquerda da Quelha da Costa, quem sobe. Caminhei a tarde toda e depois infiltrei-me no meio dos outros para o regresso a casa. “Faltas-te à escola”? Claro, se não apareci é porque faltei. Apressei-me para ir buscar as vacas e, quando cheguei já a minha mãe estava informada pela professora que eu tinha faltado à escola. Anda para casa que, nós os dois, vamos conversar”, diz-me a minha mãe. Pensei caladinho: «pois seja, já estou preparado para isso».

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Nos socalcos de Adrão, em 2016, as flores observavam, como antigamente (em 1954), as minhas passadas

“Porque faltaste à escola, Luis”? Atrasei-me com as vacas, ia chegar tarde à escola e, como não queria apanhar da professora, passei o dia no meio das flores. “Então apanhas de mim, ou pensas que ficas aí a gozar. Se faltares chumbas e depois atrasas-te e isso é pior. Desta vez o teu pai vai ter de te chegar a roupa ao pêlo”!

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A Rosa (Caneira) Franqueira, filha de um primo da minha mãe, minha prima, sabe que, regando as suas flores, me está a mostrar um Adrão mais moderno

Pensei logo:«o meu pai nunca me bateu, pode ser que me safe! Acho que ganhei o primeiro assalto».

A tia Teresa Bondeira que ouviu tudo, só lhe disse, tentando apasigua-la: "não batas no moço. Ele porta-se tão bem que lá terá tido as suas razões para faltar à escola. E, pelo que ouço eles dizerem, a professora também bate, aos miúdos, por tudo e por nada". Pois era assim, de facto. Por tudo e por nada!

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 Também, em Julho (2016), caminhei junto dos garranos nas Fontes, onde as minhas montanhas estavam lindamente floridas

Nesse dia fartei-me de ver as flores. Dediquei-lhes um dia contra a sociedade. Foi um dos dias mais lindos que tive, como criança e ainda hoje dedico muito do meu tempo às flores. Em Marrupa, no norte de Moçambique, pegava numa arma e ia para o mato, para ver nascer as flores. Ainda não tinha chovido e já elas furavam do chão puxadas pelas cacimbadas das monções que já iam fazendo valer a sua influência. De Vila Cabral o meu amigo Pescadinha emprestou-me os slides de flores que eu passei grande parte das noites a observar. A tela era um lençol.

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Também, em Junho (2016), caminhei sobre as carrascas floridas, observando-as e tentando não as pisar. São assim as montanhas de Adrão quando as deixam ser

Não apanhei uma tareia, nem da professora, nem da minha mãe, nem do meu pai. Mas aprendi como lição que não se deve faltar à escola.

Quando eu ouço esta canção, Where Have All The Flowers Gone 

eu digo baixinho a Pete Seeger: «as flores estão aqui comigo».


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente