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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

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Nasci em Adrão e, desde muito novo, iniciei as minhas caminhadas pela minha serra - a serra de Soajo. Em 2009 ouvi falar de uma cruz que tinha sido colocada no Alto da Derrilheira. Numa caminhada realizada com os meus companheiros e amigos da serra de Soajo, Luiz Perricho, António Branco e José Manuel Gameiro, fomos recebidos no nosso mais belo Miradouro como mostra esta foto. Algumas das vacas da serra, receberam-nos e, na sua mente, terão dito: «Contempla Ventor, mais uma vez, toda esta beleza que nunca esqueces. Este é o teu mundo e é nele que o Senhor da Esfera te aguarda». Tem sido sempre assim, antes e depois da Cruz

Se querem conhecer Adrão, Soajo e a nossa serra, podem caminhar pelos meus posts. Para já, só vos digo que fica no Alto Minho

14.05.12

Mês de Maio ...


Ventor

 ... em Adrão.

Os meus meses de Maio, em Adrão e também em Paradela, agora só fechando os olhos e olhar no meu interior as lápides gravadas nos cantos do meu cérebro. Na prática é assim com tudo.

Um dos meus símbolos de Adrão - a Giesta. As nossas maias

Por Adrão, dependia do tempo, pelos fins de Abril e Maio dentro, havia um perfume intenso! Os cheiros, penetravam pelo nosso nariz, dando origem a um "must", que nenhuma perfumaria consegue apresentar. Desde os "estercos" originados pela fermentação dos estrumes, originada pelas dormidas dos animais e que, pela noite dentro, iam depositando o resultado das suas necessidades fisiológicas, catalisadas pelos calores dos seus corpos, até ao cheiro da terra originado pela evaporação das águas da chuva, especialmente trovoadas e, pela passagem dos cheiros intensos que saíam das belas flores que cresciam por todo o lado, misturado com aquele cheiro que resultava da erva da semeia que se deixava crescer para alimentar as vacas que puxavam os carros de bois e os arados que depois, rasgavam as terras.

Era assim por todo o lado. O Eido, as Brandas de Bordença e da Açoreira, retribuíam-nos, com belos perfumes, aligeirando o cansaço originado pelo trabalho. A maior alegria que eu tinha, nesses tempos, era conseguir dar às vacas que trabalhavam, uma boa ração da erva de semeia ainda verdinha e levá-las beber ao rio e, o maior problema que eu tinha, quando era puto, era o meu pai ralhar comigo quando eu retirava os grilos do rego deixado pelo arado, para as vacas não os pisarem.

Recordo-me perfeitamente do meu pai me gritar, dizendo: "as vacas ainda te pisam por causa dos grilos, Ventor"!

 Carro de bois, na ilha de Santa Maria, nos Açores

Hoje, recordo tudo o que o trabalho e as brincadeiras me proporcionavam. As alegrias, o cansaço, os cheiros, o chiar dos eixos dos carros de bois pela Veiga abaixo, os aros de ferro que protegiam as rodas a bater contra os caminhos pedregosos, os esforços que os animais faziam a segurar o carro nos sítios íngremes, ou a puxá-lo nas grandes subidas dos caminhos.

Recordo-me bem como, então, os putos de Adrão gostavam de pedir boleia sem levantar o polegar, como se faz hoje por essas estradas. Seria uma das coisas melhores da nossa vida de crianças andar à boleia, nos carros de bois. "Podes vir comigo, rapaz, para cá, vens no carro". Estou a recordar-me do ti Manuel Rego que sempre me dava boleia. Uma vez, no Carril, ele vinha para casa, com as vacas pela soga e o carro e eu vinha do Lume da Leira. Aproximei-me do carro, por trás e, confiante que dali não viria nenhuma nega, saltei para o carro, muito caladinho, para o surpreender quando ele chegasse ao Eirado. O pior foi que as vacas assustaram-se com o meu salto e iniciaram uma corrida doida e o ti Manel, Deus o tenha no céu, também assustado, saltou para o lado para o carro e as vacas não o atropelarem mas, era no sítio mais estreito do caminho e o eixo, de passagem, ainda lhe raspou uma canela.

Toda a gente de Adrão me queria crucificar, até a minha mãe mas o ti Manel Rego, foi a única pessoa que me defendeu. Ele e eu, julgamos que as vacas não fugiram por minha causa mas, talvez, por causa da mosca. Pode ter havido coincidência com o meu salto e com a ferradela da mosca numa das vacas. Elas eram muito mansinhas. 

Mas nunca me esqueço que, a única pessoa prejudicada pela minha acção, se fui eu, foi a única pessoa a defender-me.

 
O arado egípcio. Tal como em Adrão, já os egípcios, milhares de anos atrás, aravam a terra para deitar as sementeiras
 
Os estercos transportados nos carros de bois, eram colocados em montinhos espalhados nas lavouras. Depois, eram espalhados com uma forquilha e, por fim, lá ia o arado rasgar a terra. Enxadas no ar, a despedaçar os grandes torrões deixados pelo arado, grilos em fuga e as sementeiras iniciavam-se.
Era aí que eu começava a estudar o problema! Quando via a minha mãe com o milho no avental, metia a mão, enchia-a e espalhava o milho o melhor que podia. Então eu pensava que, poupar o milho, não era boa ideia. No espaço de cinco grãos de milho, seria melhor meter 10 ou 15, pois assim, poderíamos obter muitas mais espigas. Mas, com a caminhada do seu crescimento, vinha a monda, o desbaste, o arranjar do espaço e eu danava-me de não me deixarem realizar a minha experincia de criança.
 
Recordando os meus maios, meti aqui um arado egípcio tentando assim, mentalmente, prestar uma pequena homenagem ao Germano. O Germano era o nome de guerra de um elemento do PCP, esquecido pelos seus camaradas, segundo ele me disse, após a queda do Muro de Berlim e das lutas intestinas desencadeadas no partido de Álvaro Cunhal.
Não me esqueço do que o Germano me disse numa pequena conversa que se tornou bem grande, onde me falou do seu tempo de criança, quando só calçou os pés aos sete anos e, aos 12 anos se pirou da sua "Adrão", ali para os lados da serra da Estrela, de onde veio para Lisboa, passando a partilhar, desde então, dos ideais comunistas.
 
Porquê o arado egípcio, então? Porque o Germano que já tinha tido problemas cardíacos, disse-me que tinha dois sonhos na sua vida! Agora, arredado dos problemas do PCP (Partido Comunista Português) e ter adiado, no Hospital de Santa Maria, o final da sua caminhada, tinha agora de vencer o tempo que os médicos lhe deram de vida, cinco anos de que só sobravam quatro. Só pensava dedicar-se a estudos demográficos sobre a margem sul do Tejo e,  sobre o Egipto, especialmente, a agricultura e, já teria pesquisado o suficiente para dar uma varridela em tudo o que nos contavam do Egipto, especialmente, da sua agricultura e do seu sistema de regas a partir do rio Nilo e demonstrar ao mundo que os egípcios não tinham sido esclavagistas.
 
Quem me dera estar enganado mas julgo que o Gemano já terá sido levado à presença do Senhor da Esfera. Se estiver enganado, assim espero, ainda terei oportunidade de um dia, ver por aí um estudo, sobre a agricultura dos grandes Faraós.
Talvez assim, observando os arados egípcios e os lagos artificiais, junto às margens do rio Nilo, me ajude a esquecer dos nossos Maios e dos nossos regos, como o da Açoreira.

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente

09.05.12

A Serra de Soajo


Ventor

Quando olho para trás, recordo e vejo a minha serra - a serra de Soajo!

Por isso, recordo e relembro o meu berço. O meu berço de granito! Recordo que, nesse tempo, não sabia quem era David, nem sabia quem era o Golias mas, relembro que, então, sem conhecer esses dois, eu também tinha uma funda! Tinha uma funda mas não tinha nenhum Golias para abater! Porque não tinha filisteus nem israelitas, em armas. Não tinha desertos a defender nem palácios com colunas de mármore, como Gaza! Tinha casas simples de granito onde o gado era rei! Tinha um Éden feito de flores simples, onde predominava a flor da Erica que, na sua pintura rosa, nos inspirava à glorificação dos deuses.

Subia da Açoreira pelo Barroco, com as minhas vacas que adoravam ir deitar-se, entre os fetos, no Poulo da Chãe do Ruivo. Comiam carrascas e ervas, torciam ao Poulo da Fraga, dirigiam-se pela encosta da Centeeira, comendo ervas e carrascas rosas até atingirmos esse Poulo de fetos e, pelo calor das manhãs quentes, nesse monte ensolarado, elas deitavam-se entre os fetos. Atrás delas, eu observava as carrascas rosadas por onde pululavam as abelhas, na azáfama de apanhar o néctar para fazerem o mel e, entre as flores rosadas, subia até mim a melodia daquela orquestra que nunca mais esqueço.

No Poulo da Chãe do Ruivo, as minhas vacas descansavam, entre a sombra dos fetos e eu subia até á água que brotava na tapada do ti João Perricho onde comia o meu bacalhau, presunto ou chouriço com pão e, voltava ao tal poulo, onde fazia festas às minhas vacas deitadas que, começavam a levantar-se e espalhavam-se, monte acima, enquanto eu, com o meu cinto e umas pedras arredondadas, utilizava a tal funda, fazendo bater a pedra no poulo que, depois, partia a toda a velocidade fazendo um "róóóôôommmmm" tão intenso que parecia os aviões que, nos seus voos experimentais, tal como eu, de vez em quando, subiam as minhas montanhas lindas.

Belezas de sempre, pelas minhas Montanhas Lindas 

As imagens que tenho desses tempos e desses troços das minhas caminhadas, são as mais lindas da minha vida e estão gravadas no meu cérebro tal como as imagens da gruta de Altamira estão gravadas nas rochas. Imagens lindas como essas da Centeeira florida de cor rosa, só encontrei na Serra do Avô. Depois disso, apenas voltei a ver carrascas floridas mas, nunca mais espaços abertos, rosados, como nesses tempos.

É recordando que me apetece falar das coisas. Falar das minhas vacas, das ovelhas da Açoreira, das ovelhas da tia Custódia, pela encosta do Gondomil cheia de urzes floridas das frases de então, "Luis, vira-me as ovelhas para baixo", da raposa a tentar apanhar uma ovelha entre as urzes floridas e da sua atrapalhação quando eu já estava em cima dela, quando já ela tentava apanhar o pescoço à ovelha. Tudo isto nos tempos em que eu glorificava a corrida, nos montes mais lindos do meu mundo.

Desses montes da Açoreira, eu olhava, do outro lado, lá por cima de Adrão, o Alto da Derrilheira e, então, limitava-me a pensar que, um dia, chegaria lá. Eu adorava os montes da Açoreira mas, com o tempo, já mais crescidinho, passei a levar as vacas para a Chãe do Boi e, quando o meu amigo Apolo aquecia as Primaveras, as vacas começavam a ficar fora e a subir até à Naia, depois até ao Muranho e por fim, já verão fora, a Corga da Vagem, o Curral do Pai, ... Acabado de sair do berço, conquistei a minha serra, palmo a palmo, metro a metro, agarrado ao rabo das minhas vacas! E, para mim, essa conquista, foi feita nos nossos trilhos da Glória, onde os deuses me falavam por baixo dos meus pés.

Com o tempo, aprendi a recordar essas caminhadas fabulosas e a nunca esquecer as belezas desse meu mundo.

Numa determinada altura aceitei que as serras de Soajo e a Amarela, fossem absorvidas por esse nome colectivo de Parque Nacional da Peneda-Gerês. O Parque tinha de ter um nome e era aceitável que fosse utilizada a lógia orográfica das serras que o compõem - Peneda-Gerês!

Porém, não aceito que uma cambada de pilantras, armados em sabichões, passem a chamar à serra de Soajo, serra da Peneda! Cada macaco no seu galho!

Fazemos parte de um país habituado a deturpar tudo. Até a porcaria de uma telenovela, produzida e realizada por Nabos, se propôs subverter os meios para atingir o seu fim.

Quando diziam, "vamos para a Peneda", apenas queriam dizer, vamos para os Arcos! Quando diziam que iam para a serra da Peneda, queriam dizer que iam para a serra de Soajo. São gente de tão fraca índole que até descobriram que os lobos iam aos poleiros às galinhas! Porém, podem inventar tudo, menos outro nome para a serra de Soajo! Podem caminhar nas fantasias da incompetência, sempre que queiram, mas não admito que troquem o nome à minha serra.

A minha companheira de caminhadas pela serra de Soajo, nos meses de Agosto

Estou farto de doutores e engenheiros pindéricos, cheios de palas. Colocaram-lhe palas nos olhos e só olham em frente, esquecendo-se dos lados e da rectaguarda. Conheci muitos assim! Com o canudo mas, com uma pobreza de espírito atroz que me parecia terem apenas serradura na cabeça! Não é por acaso que o nosso país tem andado à deriva e parece, assim continuará, eternamente.

Podem governar mal. Podem encher-se à custa do povo e em nome do povo. Se o povo deixa, nada tenho a ver com isso e se entram sem nada e todos saem bem abastecidos, como dizia uma noite destas, o Manuel Monteiro, isso só acontece porque o povo, na sua boa fé, lhes permite que assim seja. Contra isso não posso nada! Todos esses pindéricos podem fazer tudo mas, junto de mim, não podem trocar o nome à minha serra!

 

Já caminhei em serras com quase o dobro da altura da serra de Soajo mas, a Pedrada, será sempre, para mim, o meu Outeiro Maior, tal como vem nas cartas militares.

Há muita gente que chama a Adrão, a terra da fome, do frio, da escravatura ... De facto foi uma terra que não foi capaz de dar de comer a todos os seus filhos, tal como todas as terras de Portugal mas, para mim, Adrão conseguiu o milagre de nunca me pôr contra ela. Adrão teve o dom de me fazer esquecer tudo o que tive de mau por lá e apenas registei tudo o que por lá tive de bom! O mesmo me aconteceu com Moçambique. Cheguei, olhei e gostei. Quase não me recordo de nada que tenha sido mau. Limitei-me a encostar a tristeza num canto do sótão e esquecê-la.

Quando a minha vida não corre bem, só há um lamento que não me larga. É este: "se calhar, nunca mais vou conseguir subir à Pedrada"!


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente