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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

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Nasci em Adrão e, desde muito novo, iniciei as minhas caminhadas pela minha serra - a serra de Soajo. Em 2009 ouvi falar de uma cruz que tinha sido colocada no Alto da Derrilheira. Numa caminhada realizada com os meus companheiros e amigos da serra de Soajo, Luiz Perricho, António Branco e José Manuel Gameiro, fomos recebidos no nosso mais belo Miradouro como mostra esta foto. Algumas das vacas da serra, receberam-nos e, na sua mente, terão dito: «Contempla Ventor, mais uma vez, toda esta beleza que nunca esqueces. Este é o teu mundo e é nele que o Senhor da Esfera te aguarda». Tem sido sempre assim, antes e depois da Cruz


Se quiserem conhecer Adrão, Soajo e a nossa serra, podem caminhar pelos meus posts e blogs. Para já, só vos digo que fica no Alto Minho.


20.07.10

Castro Laboreiro


Ventor

Castro Laboreiro: o homem, o cão e a serra (veja fotos aqui)

Eu, para ti, era um estranho, mas tu soubeste que nos meus olhos, tal como nos teus, não havia maldade

Já falei aqui, algumas vezes, de Castro Laboreiro, dando, pelo menos, um cheirinho dos seus belos cães e das suas pontes romanas, românicas, célticas ou "miscelâneas" (reconstruções, reparações), porque não? Desde que o homem tentou atravessar rios, ribeiros, corgas, ... que pensou em construir pontes e, nisso, sabemos que os romanos foram especialistas no seu tempo. Hoje tudo evoluiu, desde as pontes das grandes vigas e, especialmente, desde que S. Francisco quis uma grande ponte na sua baía. 

Mas, mesmo não havendo maldade, tu indicaste-me que nós éramos estranhos e cada um deveria seguir seu rumo, mas ficamos amigos para sempre

Eu, e outros de Adrão, por exemplo, tal como os de Castro Laboreiro e muitos outros, podíamos vir a ser bons engenheiros de pontes. E porquê? Porque nós, quando pequenos, brincávamos às "pocinhas"! Isto é: "represas e pontes em miniatura", eram a nossa especialidade (fazíamos os nossos brinquedos). Quando ouvia falar da velha represa de Lindoso, sabia que a passagem era feita de barco, de Paradela para Lindoso e de Lindoso para Paradela. Cheguei a imaginar construir barragens e, para evitar o barco, construir a respectiva ponte que permitisse a passagem. Havia determinados locais que as águas das chuvas escorriam e nós fazíamos a barragem e construíamos a tal ponte de madeira ou pedra, imaginando como dispensar o barco (na realidade, nunca fui amante dos barcos), mas os dilúvios de Adrão, levavam-nos tudo!

Vós sabeis que sois os guardiães da vossa dona e que fazem parte da sua família e ela da vossa. Juntos levaram as ovelhas à serra e juntos as levarão de volta. Agora, se calhar, o lobo já não é perigo

Ninguém me garante que não foi assim, brincando às "pocinhas" que os povos (como os celtas, os romanos e outros) aprenderam a construir as suas pontes!

Depois de subir e descer outeiros e de pisar tapeçarias de granito, pisar tojos e carrascos, observar as belas flores dos vossos montes (como as dedaleiras, pois haviam muitas à vossa volta), sabe bem o descanso

Mas, sobre pontes, como as de Castro Laboreiro, romanas ou primas, eu só mostrei fotografias, e falei dos carriços do rio. Pouco sei sobre Castro Laboreiro a não ser que algumas dessas belas pontes romanas ou "romanóides", que atravessam o rio Laboreiro, são lindas, como lindas são as suas paisagens.

Sobre os cães de Castro Laboreiro, conto por aqui a história que o meu pai me contava  quando era miúdo. Essa história o meu pai contava-ma como se o dono do cão fosse seu amigo. Se calhar era. Isso será de somenos importância! A importância está no comportamento do cão de Castro Laboreiro perante o seu dono. E quem conhecer um pouco dos cães de Castro Laboreiro, sabe que eles são assim e não custa nada admitir a história como verdadeira. Com essa história e outras, além da minha permanente convivência com cães de várias raças, como os de Castro Laboreiro (lembro-me muito bem de um cão chamado Grilo que veio de Castro Laboreiro para Lisboa) e de um pastor alemão que conviviam e brincavam porque o pastor alemão viu crescer o castrejo e adaptaram-se mas, nunca me esqueço dos ciúmes que tinham se eu dedicasse um pouquinho mais do meu tempo ao outro.

Também a vossa dona estará cansada mas, aposto que nunca da vossa companhia

Mas em Castro Laboreiro eu gosto de tudo. Dos seus montes na sua escalada para alcançar o céu, dos seus cães, junto dos rebanhos e das suas gentes! As gentes de Castro Laboreiro espalham-se pelo planalto, por cerca de 40 localidades, eu ainda só vi algumas! Além de Castro Laboreiro, a terra que dá o nome genérico a toda aquela bela área castreja, no Parque Nacional da Peneda Gerês, mais umas quantas das suas brandas e inverneiras (só passar e olhar), sempre na corrida com rodas no alcatrão do planalto.

Sei que as suas gentes, tal como as de Adrão e de todos os lugares serranos, em volta, continuam a vestir-se de negro pelos que partiram para outros mundos. Aqueles que jamais voltarão e aqueles que não sabem se voltarão um dia. A vida das famílias dos emigrantes foi sempre triste para os que ficaram e para os que partiram. Os seus corações pulsam mais forte para alcançar mais longe.

Agora, vão reiniciar mais uma caminhada, monte abaixo porque, Apolo que vos aqueceu durante o dia, também já desce rumo a ocidente

Mas ver Castro Laboreiro como área turística é apenas uma das formas de caminhar por lá. Para as suas gentes, as caminhadas tornam-se mais penosas, pois os novos arrancaram à procura de vida e os que ficaram ou que vão regressando, ficaram mais velhos e com menos força para escalarem os seus outeiros. O cão de castro Laboreiro, tal como as suas gentes tentam caminhar entre os granitos, sonhando com os lobos, sonhando com as caras familiares, esperançados de que um dia voltarão a encontrar-se todos, uivando ou chorando uns pelos outros.

Mas, antes de reiniciarem a caminhada da descida, a vossa dona observa os forasteiros e vós vão observando ela para confirmarem se tudo está bem e nem se levantem porque sabem que o Ventor caminha ao lado do bem

Nós, os que vamos caminhando por lá, quando podemos e os de Castro Laboreiro que vão e vêm, sabemos que os lobos já não uivam. Uns contentam-se com ver as paisagens, observando o seu Castelo desde o Restaurante Miradouro e outros, observam os morros graníticos por onde um dia caminharam cheios da mágoa de, quase com toda a certeza, não voltarem mais a escala-los com o seu chão naturalmente belo e junto ao seu nariz.

Tentem caminhar gente castreja. O meu coração está convosco, como está com a minha gente de Adrão e tal como está com tantos outros. Caminhem rumo aos picos sempre que possam e desçam aos vales sempre na Paz do Senhor da Esfera.


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente

09.07.10

Adrão, chora!


Ventor

Adrão é um lugar  que continua a ficar sem aqueles que o amam, ou que o amaram. Um após outro, todos vamos partindo e um após outro, vamos chorando por aqueles que nos vão deixando; a nós e ao lugar que nos viu nascer.

Adrão, encravado nas montanhas, no caminho da Senhora da Peneda, vê os seus filhos partir e chegar, como todos os lugares deste país, perdidos por aí. Eu sou dos muitos que partiram e só regressam para chorar. Se não for para chorar, haverá os que regressam para beijar uma última vez a terra onde, em tempos, viram a luz, e será nessa luz que querem ficar para a eternidade.

É assim com todos ou quase todos. Desta vez foi assim com o ti Joaquim da Chica, um amigo. Um amigo de Adrão e um amigo do Ventor. Soube há pouco, por um telefonema de França, de Paris que, hoje, o ti Joaquim da Chica, o meu amigo Joaquim de Barros, nos deixou para sempre e foi em Adrão que quis que os seus ossos ficassem, também, para sempre.

Há muita gente de Adrão que tem partido e eu só tenho conhecimento quando entro no Cemitério. Neste caso morreu um amigo e outro me deu a notícia da tristeza.

Um dia, esse homem, pediu-me para levar para Adrão o projecto da sua futura casa. Eu, era um puto que sonhava com o mundo e, ele, o homem que sonhava com Adrão. Com o regresso!

"Olha, Ventor, Adrão não pode dar de comer a toda a sua gente, por isso fugimos! Viramos-lhe as costas, mas temos sempre vontade de regressar. Esse projecto é o projecto da minha casa onde, um dia, espero viver os últimos anos da minha vida. Sim, porque nós partimos, mas regressamos sempre. É uma terra que não nos mata a fome, mas que nos dá uma pujança enorme ao nosso coração. A pujança da saudade"!

Foi mais ou menos isto.

A última conversa que tivemos foi, já há meia dúzia de anos, debaixo do Carvalho de Eixão, onde eu estava numa sardinhada, e ele de pau na mão se aproximou a olhar-me e pronto para mais uns dedos de conversa. A nossa última conversa.

Há três dias, ele enviou-me a mensagem de que iria partir, pois eu fiquei grande parte da noite a pensar nele, na sua saúde e na velhice e tive saudades de falar com ele. Pensei que, talvez, este verão, o visse pela sua casa de Adrão e ainda conseguíssemos ter mais dois dedos de conversa. Dois três dias para a notícia de que ele nos deixara para sempre.

Até um dia, ti Joaquim!

Para toda a sua família, deixo aqui os meus sinceros pêsames.


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente