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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

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Nasci em Adrão e, desde muito novo, iniciei as minhas caminhadas pela minha serra - a serra de Soajo. Em 2009 ouvi falar de uma cruz que tinha sido colocada no Alto da Derrilheira. Numa caminhada realizada com os meus companheiros e amigos da serra de Soajo, Luiz Perricho, António Branco e José Manuel Gameiro, fomos recebidos no nosso mais belo Miradouro como mostra esta foto. Algumas das vacas da serra, receberam-nos e, na sua mente, terão dito: «Contempla Ventor, mais uma vez, toda esta beleza que nunca esqueces. Este é o teu mundo e é nele que o Senhor da Esfera te aguarda». Tem sido sempre assim, antes e depois da Cruz


Se quiserem conhecer Adrão, Soajo e a nossa serra, podem caminhar pelos meus posts e blogs. Para já, só vos digo que fica no Alto Minho.


29.05.10

A Batata


Ventor

A Batata, é uma das maiores culturas do mundo, procurando, objectivamente, com ela, tentar matar a fome aos mais de 6 biliões de almas existentes e que se julga, rondar os 10 biliões, pelo ano 2050. Dir-me-ão que as almas não comem mas, de facto, os corpos que as guardam, precisam de alimento.

Um batatal

Os vermes que se vão transformar em escaravelhos da batata

Claro que, sendo a produção actual de pouco mais dos 300 milhões de toneladas anual, em todo o mundo, por essa altura, e nas condições actuais, serão necessárias, no mínimo, 500 milhões, para mantermos o rácio actual. Mas, se for assim, isso significa que a fome no mundo, nos próximos 40 anos será a fiel companheira da maioria das gentes que por cá andarem nessa altura.

Também é claro que não estamos a olhar apenas para a cultura da batata mas, para todas as outras.

Mas o objectivo deste post, não é falar da fome no mundo. Creio que já ninguém leva a peito esses arautos do dom da palavra fácil, que tanto dizem mas que, praticamente, nada fazem, pois a nossa "gamela" está cheia.

Eu falo da cultura da batata apenas e só, para vos falar dos meus "castigos" de criança. Como devem calcular, as crianças, nas aldeias, vão andando por ali ao Deus dará e é preciso dar-lhes uma missão que seja útil e que os entretenha de forma saudável. Por isso, eu preferiria hoje, voltar a nascer na minha aldeia, em Adrão, cheio de nada, do que numa cidade, cheio de tudo.

Mas ainda falando da batata, todos sabemos que chegou à Europa, via Espanha, depois dos meados do século XVI e, segundo dizem os arautos da sabedoria, é originária do Sul do Peru, terra dos meus amigos Incas, antes de chegarem os espanhóis e outros.

 O escaravelho da batata já deu a sua cabazada de descendentes

Aqui, além da cabazada de descendentes, como diria o João, fez também uma cocozada

Portanto, a batata, já faz parte da globalização há quase 450 anos.

Mas, que percebes tu de batata, além de a veres no prato e a trincares? - Dirão vocês.

Pois aí é que está! Não percebo nada, mas ela fez parte das minhas primeiras caminhadas por Adrão. Eu cavei a terra onde a batata era semeada ou plantada, se quiserem;

eu partilhava do trabalho dos adultos, abrindo o sulco na terra onde colocávamos as batatas com os espaços adequados;

eu colocava, irmãmente, o estrume e as cinzas do nosso borralho (o potássio) que lhe iam servir de alimento;

e, mais que isso, trabalho só meu, logo que fui dado como preparado para todo o serviço, deram-me autorização para fazer a guerra ao escaravelho - o escaravelho da batata. O nome pomposo do escaravelho da batata para a ciência é: Leptinotarsa Decemlineata.

Dizem os sabidos que é originário da América do Norte. Se calhar, penso eu, veio às costas da filoxera! 

 Até parece que está a proteger os seus futuros "meninos"

Mas, o escaravelho da batata, já disse, ao Ventor, em tempos que já lá vão, que também gosta de apreciar as flores

Tudo isto porque os meus amigos Tina e Alex mataram um escaravelho da batata na sua casa da Ria e eu disse-lhes que se vissem um, para o fotografarem e me enviarem uma ou duas fotos pelo email. Recebi aqui uma catrefa delas! Dá a impressão que fizeram um assalto aos batatais dos vizinhos, apenas para colherem as imagens desses danados. 

Na verdade, eu já não vejo um bicho destes há mais de 45 anos. Nunca fui a Adrão, nos tempos em que eles vivem faustosamente nas ramas das batatas ou, então, já ninguém liga às batatas.

Por aqui, nas minhas caminhadas, quando vejo um batatal, procuro os escaravelhos, mas os batatais são tratados com produtos químicos que destroem os escaravelhos das batatas e nos vão destruindo a nós, mais lentamente.

Por isso, deixo aqui o meu obrigado aos meus amigos Tina e Alex por terem a pachorra de andarem no batatal à procura dos escaravelhos, que vos deixo aqui.

Quem sabe eu não deva perder esses tipos de vista?

Quem sabe a minha guerra, com eles, ainda não tenha acabado ?


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente

24.05.10

As Rolas e os Pombos


Ventor

Quais são os primeiros a chegar?

Uma rola. Uma maravilha da natureza!

Tais como as andorinhas e muitas outras aves, como os cucos, os abelharucos e outros, a rola é uma ave que anda sempre nos trilhos do Ventor.

Quando era pequeno, os pombos, as rolas e os cucos, apareciam pela Primavera e o cantar desses três, sempre me encantaram. Mais o cantar do cuco, porque era o menos ouvido. Era e é, de facto, especial para mim. Mas recordo-me bem das rolas e dos pombos e do dilema que deixavam às gentes de Adrão.

Quais os primeiros a chegar?

Para uns, eram os pombos, para outros, as rolas. Eu nunca consegui ter a certeza dos primeiros a chegar a Adrão, mas sempre me convenci que eram os pombos bravos. O decurso dessa caminhada era avaliado pelos seus cânticos. Uns ouviam primeiro os pombos bravos e outros as rolas bravas ou rolas comuns. Essa avaliação era apreciada por simples  casualidade do seu cântico e a minha alegria era, conforme os anos, a chegada da Primavera ou a saída do Inverno.

Mãe, mãe, pai, ouvi cantar o pombo!

Pai, pai, mãe, ouvi cantar a rola!

Essa era a definição dada à chegada desses dois, pelos bosques (ou bouças) de Adrão. A outra era que, os pombos, fazem os ninhos mais altos e, as rolas, fazem os ninhos mais baixos. Tudo ficou por aqui! Mas um dia, nas minhas caminhadas por Lisboa e, pelos seus arredors, eu não via as rolas. As minhas rolas! Estas que comecei a ver por cá, as rolas turcas, não me diziam nada. Comecei a vê-las junto à Fábrica da Nacional, ou armazéns, ali pelo Poço do Bispo e arredores.

Mas, as minhas rolas bravas, tinham-me abandonado. Quando ia a Adrão, não via as minhas companheiras da meninice. Elas andavam por lá, mas eu não ia aos ninhos! Tudo tinha acabado! Um dia, cheguei lá e vi duas rolinhas bravas que o meu irmão tinha apanhado e estavam metidas numa gaiola. Quando me despedi dele, virei-me para ele e disse-lhe: "sabes o que me apetecia fazer, antes de ir embora? O quê? "Apetecia-me partir-te a gaiola e soltar as rolas"!

Mas ele lá ficou com elas! Não fui capaz e ainda bem que não o fiz. Se calhar, elas já não iam para lado nenhum! Mas, as minhas caminhadas pelas savanas de Marrupa e de Vila Cabral, em Moçambique, deram-me um fartote das minhas companheiras de criança. Elas estavam em tudo que era sítio. Esvoaçavam à minha volta, entre o arvoredo e empanturrabam-se de milho nas machambas por onde esvoaçavam. Foi uma das minhas maiores belezas africanas, o arrulhar das rolas! Rolas e pombos verdes, por Vila Cabral.

Ainda matei pombos, mas nunca matei uma rola. Houve um pombo que matei, o último bicho a que dei um tiro que nunca mais esqueci. A sua mensagem, a mensagem do desespero, foi-me gravada para sempre.

Um pombo bravo ou pombo-torcaz que passeava em S. Pedro de Sintra

Quando cheguei, procurei rolas e procurei fotografá-las, mas elas sempre me fugiram e nunca me deixaram conversar com elas.

 Uma vez, apanhei uma, em Adrão, quando saía, rumo a Lisboa. Estava na sombra e longe e ficou tremida e escura, péssima! Mas mantive essa foto sempre comigo.

Há dias, quando eu Caminhava pelo Lisandro , com os meus amigos de Mafra, vi um pássaro voar à minha direita e pousar numa árvore lá em frente. Esse pássaro pareceu-me um gaio e rola turca também não era. Mas o contraste do voo rápido fez-me pensar que, não seria um gaio e não era mesmo. Só quando cheguei a casa me apercebi que tinha tido uma rola, uma bela rola comum, pela frente - a minha rola brava. Mais me parece um "rolo" com um papo cheio de tudo o que apanhou nas margens do rio Lisandro.

Ora, uma rola! Dirão vocês! Mas, para mim, ela foi preciosa. Ela trouxe-me uma mensagem de todas as rolas.

"Olá ventor"!

Eu e ela, continuamos a sonhar que existimos, juntamente com a rola turca. Caminhamos por aí e vivemos a vida que nos permitem. Como eu gostaria tanto de proibir a caça às rolas! Creio que, se não protegermos as rolas bravas, um dia, ficaremos sem elas!


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente

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