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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

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Nasci em Adrão e, desde muito novo, iniciei as minhas caminhadas pela minha serra - a serra de Soajo. Em 2009 ouvi falar de uma cruz que tinha sido colocada no Alto da Derrilheira. Numa caminhada realizada com os meus companheiros e amigos da serra de Soajo, Luiz Perricho, António Branco e José Manuel Gameiro, fomos recebidos no nosso mais belo Miradouro como mostra esta foto. Algumas das vacas da serra, receberam-nos e, na sua mente, terão dito: «Contempla Ventor, mais uma vez, toda esta beleza que nunca esqueces. Este é o teu mundo e é nele que o Senhor da Esfera te aguarda». Tem sido sempre assim, antes e depois da Cruz

Se querem conhecer Adrão, Soajo e a nossa serra, podem caminhar pelos meus posts. Para já, só vos digo que fica no Alto Minho

23.11.09

Pertinho do Céu


Ventor

Caminhar nas minhas Montanhas Lindas é caminhar ao lado da minha gente, bem pertinho do céu, sob o tecto azul do meu amigo Apolo. Faça comigo, esta caminhada, entre 200 fotos que mostram como são lindas as minhas montanhas

É isso mesmo. Coloco aqui mais estas 200 fotos, algumas repetidas, da nossa caminhada, em Agosto passado, pelas nossas Montanhas Lindas.

Ficam aí, algum tempo, para a nossa gente ir caminhando também, por lá. Como eu dizia ao meu Quico, vamos fazer mais uma caminhada virtual, entre os nossos amigos, nas nossas Montanhas Lindas. Ele corria para aqui e sabia observar essas belezas a que chamamos rainhas das montanhas, bem como os garranos, as cabrinhas, as ovelhas e todos os outros.

De futuro, e enquanto o Senhor da Esfera mo permitir, eu caminharei por aí, por eles e pelo Quico, o meu mais lindo companheiro, que alegrou 12 anos da minha vida.

Cada vez que caminho no meio desses amigos, sinto-me rejuvenescer e não troco essa caminhada por nada deste mundo. Só não a faço mais vezes porque a outra parte das caminhadas da minha vida não mo tem permitido mas, quando desço desse tecto do nosso mundo, trago comigo, sempre, a esperança enorme de que voltarei mais uma vez.

Mas, este ano, trouxe, também, a alegria de ver muitas rainhas das montanhas espalhadas por esses lugares de sonho que me fizeram lembrar a última metade da década de 50, não fossem os fantasmas brancos dos troncos das urzes a recordar o terrível incêndio de Agosto de 2006, tudo seria perfeito.


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente

23.11.09

Os Caniços


Ventor

Caniços, canastros, espigueiros ...

Espigueiros em Adrão - no Cabo do Eido

Espigueiros na eira comunitária de Soajo

Quando eu era pequeno, se calhar, vivi a vida do inca!

Não é por acaso que sinto uma predilecção pelas gentes incas. Em Adrão, no século passado, pelo menos, até finais da primeira metade, vivemos a cultura do milho, a cultura da batata, a cultura do feijão ...

Mas, a cultura do milho foi aquela que mais profundamente me marcou. A cultura do feijão era um complemento da cultura do milho, pois os feijões eram também semeados no meio do milho e era, por vezes, o próprio milho que lhe servia de suporte como estaca.

Tudo começava em Abril!

Era em Abril que começávamos a tirar o esterco das cortes que, durante o ano, noite após noite, os matos ali colocados para fazer as camas dos animais, tinham sido fermentados por vacas, cabras, ovelhas, porcos ...

Mas a cultura do milho nunca terminava. Não nos dava tréguas!

O roçar dos tojos, dos fetos, algumas carrascas, ... engabelar, colocar uma pedra em cima para que o vento não espalhe o mato, deixar secar e, por fim, transportar às costas ou em carros de bois, colocá-lo junto à corte e, usá-lo conforme as necessidades, para manter as camas dos animais limpas e para que as camadas inferiores se fossem fermentando, transformando-se em adubo ou, como vulgarmente dizíamos, esterco.

Depois, por Abril - Maio, tirava-se o esterco das cortes para fora e, para não variar, era transportado em cestos de vergas ou em carros de bois, sendo colocado, estratégicamente, em montículos, pelas lavouras para serem lavradas ou sachadas.

Depois, quando  vinha a lavra, duas vacas, duas pessoas e um arado e, sem ais nem uis ou, então, com muitos ais e muitos uis, revolvia-se o terreno.

Por fim vinha a sementeira. Semeava-se o milho, sachava-se a terra à força de pulso, gradava-se com duas vacas, duas pessoas e uma grade.

Depois de tudo concluído, começava o germinar do milho a furar a terra, uma das minhas alegrias, pois eu começava sempre a contar os pés que furavam a terra. Começávamos à espera das chuvas ou não, conforme o andamento do meu amigo Apolo. Depois, pelo fim da primavera e pelo verão fora, continuava-se com o trabalho, sempre continuado e vinha a monda do milho, as sachadas, as regas, as sementeiras das ervas para o gado para que, durante o inverno, haja reforço de ervas frescas nas lavouras para os animais.

O rego que leva a água para regar a Veiga , desde o poço da ponte

As regas eram fundamentais para se conseguir colheitas razoáveise eram feitas tanto de noite como de dia. De noite eram necessárias duas pessoas. Uma para regar e a outra para alumiar com uma lanterna de petróleo ou outro tipo. A mim, tocava-me a utilização da lanterna para alumiar a minha mãe e, por vezes, uma das minhas tias que me pediam para lhes fazer companhia alumiando.

Por fim vinha o corte do milho, a sua colocação em medeiros para secar e, depois, as esfolhadas, separando as espigas da palha, colocando as espigas espalhadas para secar e fazia-se a meda da palha em volta de um pau, mantendo ali a palha de milho enquanto necessário, até ser transportada para o palheiro, servindo para, no inverno, alimentar o gado com o reforço de uma ceia.

Sempre que o meu amigo Apolo permitia, deixava-se secar as espigas que, posteriormente, seriam colocadas em cestos ou sacos de zarapilheira e transportadas às costas para os caniços, ou canastros - os tais espigueiros.

Como podem ver, mostro aqui como todo o ano é dedicado à cultura do milho! Todas as outras culturas, tal como as batatas, os feijões, as couves, a cebola, o centeio ... etç., eram acessórias.

Até a cultura do vinho, em Adrão, era acessória pois ninguém gostava de ver as suas belas lavoiras de milho, prejudicadas por videiras penduradas nos sucalcos, também estes à inca.

Todas as áreas de montanha, com maior ou menor grandeza, são preparadas à inca. O sistema de sucalcos, o sistema de rega, tudo muito rudimentar - mas à inca.

Adrão dispunha e dispõe de caniços, em eiras, como a Eira da Leira, a Eira de Outeiros a Eira da tia Saloia e, em eiras ou fora delas há, ou havia, caniços em Adrão por todo o lado. Serão certamente tantos como os célebres 24 da Eira Comunitária de Soajo, mas Soajo tem outros caniços espalhados por lá.

Lembrei-me de vos falar aqui dos caniços ou, se preferirem, espigueiros, porque eles são, fundamentalmente para guardar o resultado da cultura do milho - as espigas!

Falo aqui dos caniços ou espigueiros porque, em Agosto passado, quando tirava fotos da estrada sobre essa bela branda de Adrão, a que chamamos Bordença, reparei num dos seus caniços de outrora, um caniço solitário, que parecia dizer-me: «Ventor, tu um dia partirás para sempre e eu aqui permanecerei, enquanto me deixarem, à espera que a cultura do milho regresse. Será que alguma vez voltarei a guardar as espigas de milho cá dentro, Ventor»!

Não me admiraria nada que uma pequena, média ou grande convulsão, a nível de grandes regiões, continental ou até mundial, venha um dia a devolver as gentes de Adrão ou outras, à cultura do milho.

Se um dia isso vier a acontecer, quem sabe, os espigueiros de Soajo, de Adrão e muitos outros, recordarão sempre que, quando o Ventor os olhava, o seu olhar era uma forma de agradecer àqueles monumentos de pedra a sua lealdade na guarda e conservação do nosso milho ... do nosso pão.

O moinho da Ponte, um dos vários moinhos que Adrão já teve

Depois tiravam-se as espigas do caniço, conforme as necessidades, debulhavam-se de várias formas, levava-se o milho ao moinho, onde era moído e transformado em farinha e farelo que depois se transformava em pão.


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente