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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

 

 
Lobo na serra de Soajo
 
Piquenique nas Fontes, em Adrão
 
Último piquenique comigo
 
Último sorriso para mim

11.09.06

Adrão - Cemitério


Ventor

Sempre que posso, passo pelo Cemitério de Adrão para dizer olá à minha gente. Tenho lá muita família e muitos amigos.

O Cemitério de Adrão. Lá ao fundo a serra Amarela e o Gerês

Eu, quando passava por Adrão, encontrava-os atrás das vacas, atrás das ovelhas, pelos caminhos, à janela, ... e, sempre que vou visitar o Cemitério acabo por encontrar mais alguém. Mais um amigo ou amiga que foi caminhando à frente.

Desta vez foi o Joaquim "Brasileiro" ainda meu parente pois o seu pai e a minha mãe eram primos direitos. Ele era um pouco mais velho que eu e, entre os mais velhos e os mais novos houve sempre uma passagem de testemunho. À medida que crescíamos íamos caminhando sempre mais alto! Mais uns dias, uns meses e dávamos mais umas passadas inesquecíveis. Sempre mais um cabeço, mais um monte. Primeiro os montes mais baixos, agarrados ao rabo das vacas.

Depois o Poulo da Férrea, a Chãe do Boi, depois a Naia, depois o Muranho e, por fim a Pedrada! É para esses montes que dá a porta do Cemitério de Adrão. Estas eram as caminhadas que nos marcaram como crianças e depois como homens. Passo a passo, mas sempre mais um, mais dois, muitos! Nas costas do Cemitério ficam os nossos outros montes. A leste o Gondomil, a Corga das Estacas. A sul a Assureira, a Oeste o Senhor da Paz e os montes de Bordença. Para Norte, a Portela, a Corga Grande, mas entre o Norte e o Oeste fica a saga das nossas grandes caminhadas. O Alto da Derrilheira, rumo à Pedrada.

O Cemitério de Adrão. Do lado de lá, o Poulo da Fraga e os montes da Assureira 

O nosso mundo era grande à medida que trepávamos e a nossa liberdade era total. Contida nos parâmetros das caminhadas dos mais velhos, mas total. Corríamos montes e vales e trepávamos as rochas como cabritos até atingir a próxima fonte. Caminhávamos no rasto do lobo. Ainda hoje caminho no rasto do lobo e sinto-me tão lobo como eles, quando trepo nas minhas montanhas. O lobo via-nos, mas nós não o víamos a ele. Raramente lhe colocávamos os olhos em cima! Ainda hoje admiro aquele canídeo deslumbrante que sei que me olhava, me admirava e me respeitava. Se assim não fosse, não andaria por aqui, caminhando com os dedos sobre teclas e a falar-vos do respeito mútuo que nos norteava. Sinto que há dentro de mim muito do lobo! Sinto que trepo as nossas montanhas com a mesma animosidade e generosidade que ele. Somos mesmo inseparáveis!

Mas nessa altura, o lobo era inimigo dos nossos gados, portanto, nosso inimigo também! Era por isso que uma montaria era uma festa! Mas, a partir de uma determinada altura, quanto mais crescia mais imaginava o lobo como um companheiro de caminhada. O Joaquim perguntava-me sempre: «viste o lobo, Ventor»? Agora não me pergunta mais, está no nosso cemitério.

Mas no nosso cemitério também encontro gente viva, gente que presta homenagem aos seus parentes e amigos. Desta vez tive mais sorte!

Do Cemitério de Adrão vêm-se os nossos montes a Leste. A Corga das Estacas, o Gondomil ...

Fátima é o seu nome. Estava junto da campa de meu pai e de minha mãe. Depois caminhou para a campa de meu irmão e de meu sobrinho. Eu vi lá gente e enquanto a minha irmã e a minha "cara metade" seguiram para o interior do cemitério eu fiquei fora a tirar fotos às suas paisagens deslumbrantes, à espera que essa gente saísse. Quando vou visitar os meus amigos gosto de estar só com eles.

De repente ouvi uma espécie de "algazarra" dentro do cemitério e vejo um braço estendido e o chamamento: «Ventor, anda cá»! Era a minha irmã que me chamava.

Por trás do Cemitério de Adrão, vê-se a Assureira engolida por matos enormes, o rio de Adrão rumo a Soajo e, do lado de lá, a serra Amarela 

Entrei e apontou-me uma mulher do grupo presente. Os olhos dessa mulher sorriam para mim, brilhando! No seu sorriso eu via uma luminosidade infinita. Sentia que ela me queria abraçar e a minha vontade era igual. Ela já sabia quem eu era, porque a minha irmã lhe dissera, mas eu não. Mas não nos víamos desde pequenos e eu não a conhecia. Nem dava para a tirar pela pinta!  Os nossos sorrisos de crianças estavam separados por cerca de 45 anos. Tínhamos um elo de ligação. A minha tia Rosa de Paradela, minha tia e sua avó!

A Fátima era de Cidadelha e vinha para Paradela fazer companhia a sua avó. Eu ia a Paradela ver a minha tia e lá estávamos algum tempo juntos. Depois a Diáspora separou-nos. Eu vim para Lisboa e ela, algum tempo depois, foi para Inglaterra. Hoje está em França com o marido.

Mas quis o senhor da Esfera que num abraço, no cemitério de Adrão, matássemos saudades de uma eternidade de separação.

Do Cemitério de Adrão vemos os caminhos da Assureira, no Grilo e por cima o caminho para o Poulo da Fraga e Centieira

Que nossa Senhora de Fátima esteja sempre contigo Fátima. No dia seguinte vi a tua irmã Angelina mais o marido, no Campo, na casa da tua tia Clementina. A emoção ali não foi tão forte porque tu foste minha companheira a devorar as fatias de presunto com ovos estrelados e rodelas de tomates que a tua avó me arranjava quando eu, miúdo, atravessava a serra para chegar a Paradela.

Muitos beijinhos para ti Fátima e não te esqueças que eu e o Quico temos muitos e-mails.

Mas vi também um amigo dos velhos tempos - o Emílio. O Emílio da Curta como a gente lhe chamava. Gostei de te ver Emílio. Tantos anos passaram entre nós e como tu me fizeste lembrar uma das pessoas de Adrão de quem tanto gostei. A tua mãe! Ela era a minha grande amiga que tudo fazia para não deitarem abaixo o cortelho do Ventor. Ainda há pouco tempo estive lá, nas minhas ruínas e nem imaginas quanto me lembrei dela. Também nunca tinha visto o teu filho. Um abraço para todos, do Quico e do Ventor. Foi o nosso Cemitério que nos ligou.

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente