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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

 

 
Lobo na serra de Soajo
 
Piquenique nas Fontes, em Adrão
 
Último piquenique comigo
 
Último sorriso para mim

10.10.05

Memória de um Combate


Ventor

Quando era pequeno, já trabalhava, pois claro! Em Adrão começava-se a trabalhar desde que se nascia.

Uma vez ia apanhar agriões bravos junto ao rego da água para regar toda a Veiga. Minha mãe encontrou-me junto à cancela da Veiga e deu-me logo uma tarefa! Perguntou-me que ia fazer e eu disse-lhe que ia arranjar comer para os coelhos e agriões junto ao rego. Eu gostava de lavar os agriões no rego e come-los assim passados pela água fresca que vinha do rio. Naquela altura a água do rio era limpinha! Quem dera hoje fosse assim!

“Nesse caso” -disse ela - “podes trazer-me couves da horta da Veiga para o nosso almoço e também para os coelhos”. Nessa altura eu tinha dois coelhos que a minha tinha Florinda da Várzea me tinha oferecido e com eles eu especializava-me todos os dias na bicharada que me acompanhava, dia a dia, na minha labuta.

Rio-Turgueira.jpg

O troço do rio ao fundo da Veiga, chama-se rio da Turgueira. Este foi o local do combate

Fui à horta, apanhei as couves e ao sair da horta, sentei-me no socalco da lavoura pendurado para o rio, à sombra de um vidoeiro. Comecei a olhar o poço por baixo e a meditar sobre o meu disparate, sempre que descia o socalco para, mais ou menos a meio, saltar de uma altura enorme para a água em que muitas vezes parecia que rebentava por dentro ao bater no fundo do poço. Em volta do poço e ao correr do rio, haviam umas ervas tenrinhas a que a gente da terra chama carriço e que eu pensava ir a seguir ao almoço com uma foicinha corta-las e leva-las para dar à minha maravilha de poucos meses, uma vitela a que chamava Nova!

Ali, sentado no socalco, observei todo o ambiente e reparei no que nunca tinha visto. A voar sobre o rio, vale abaixo, duas aves de rapina, em pleno combate! Pareciam os aviões que muitos anos mais tarde vi fazer voos de treino aéreo de combate, a brincar, nos arredores da cidade de Vila Cabral, em Moçambique. Mas, para as aves de rapina, a luta ali, era de morte!

 

Uma águia

Não é a águia real do célebre combate, na zona da Turgueira, em Adrão, mas mete respeito

Uma águia e um milhafre, tinham-se zangado algures e trouxeram a luta para junto de mim. Ali, à sombra do vidoeiro e também resguardado por ele, verifiquei que o milhafre vinha a dar uma grande tareia na águia. Ela voava por baixo com intuito de fuga, e ele picava em voos rápidos sobre ela arrancando-lhe penas da cabeça. Eu via mesmo o milhafre picar e arrancar penas da cabeça da águia e sempre que havia o impacto do milhafre sobre a águia ela descaía no ar, perdendo altura. Por fim, já juntinhos a mim, mas do lado de lá do rio, a apenas uns metros, a águia poisou sobre o pau de uma meda de feno.

Com a águia pousada no pau, o milhafre subia e fazia voo picado sobre ela espetando-se sobre a cabeça dela com uma grande bicada na nuca e a águia continuava pousada a levar tareia e a fazer um esforço enorme para não cair da meda abaixo, afocinhando
sempre que se dava o impacto. Cheguei a pensar que ia levar uma águia morta para casa, como troféu, mas também cheguei a pensar o que fazer para acabar com aquela luta que tanto se assemelhava à célebre luta entre David e Golias de que já ouvira falar. Mais tarde, vim a saber que se tratava de uma águia-real.

Quando pensava que fazer para acabar com o suplício da águia e se preparava para descer o socalco para o rio e espantar o milhafre, julgava que a águia não se iria importar nada mas, nesse momento, ela levantou voo e o milhafre ainda fez uns dois voos picados com arranque de mais umas penas na cabeça dela e quando ele se preparava para fazer mais uma investida sobre a águia, a terceira desde que ela levantara voo, reparei que a águia, ali à sua frente, apenas com o rio pelo meio, inclinou um pouco a cabeça para o seu lado esquerdo, o lado oposto ao meu, para verificar se o milhafre vinha aí. De repente ele faz um grande voo picado sobre a águia que me parecia que com aquela força de violência tal, seria a estucada final na desgraçada da águia. Mas desiludem-se! No momento em que o milhafre picou e se ia dar o impacto, a águia inverteu o voo e recebeu o impacto do milhafre contra o seu peito e, nesse instante, deu-lhe o abraço da morte. Os dois vultos voadores transformaram-se num só e ainda vi, enquanto tive espaço, a águia em voo a picar o milhafre e as penas dele a esvoaçar para trás desse vulto.

 

A beleza de um Milhafre Real

Foi uma luta que nunca imaginei que se pudesse desencadear com tanta violência e ainda hoje penso que um dos dois deveria ter fugido, mas não. Acho que a águia, desde que eu os vi, estava em fuga e quando parou no pau da meda era para ganhar forças pois via-se que estava cansada e de bico aberto e cheguei a pensar que o fim dela ia ser ali.

Não sei se o milhafre teve conhecimento da luta entre David e Golias e se até, entre eles, também existe uma história semelhante, mas sei que nunca devemos dar numa luta, a vantagem como vitória certa, mesmo quando essa vantagem é bem evidente. Para mim serviu-me sempre de exemplo aquela luta e ainda hoje vive na minha memória. 

Claro que todos poderão pensar que esta história não tem pés nem cabeça, sobretudo aqueles que conhecem bem o milhafre e a águia. Pois foi exactamente assim! Ao poder da águia opôs-se a leveza e a agilidade do milhafre. Todo o combate foi, desde que eu assisti, do domínio do milhafre. Mas há sempre um senão. O milhafre esqueceu-se que as manobras, quando em demasia, podem prejudicar-nos, denunciando a tática. E esqueceu-se, também, que a luta entre David e Golias não tem semelhança pois foi utilizada uma arma ligeira, mas com poder mortífero. Não foi um duelo resolvido à estalada ou à bicada.

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente