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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

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Nasci em Adrão e, desde muito novo, iniciei as minhas caminhadas pela minha serra - a serra de Soajo. Em 2009 ouvi falar de uma cruz que tinha sido colocada no Alto da Derrilheira. Numa caminhada realizada com os meus companheiros e amigos da serra de Soajo, Luiz Perricho, António Branco e José Manuel Gameiro, fomos recebidos no nosso mais belo Miradouro como mostra esta foto. Algumas das vacas da serra, receberam-nos e, na sua mente, terão dito: «Contempla Ventor, mais uma vez, toda esta beleza que nunca esqueces. Este é o teu mundo e é nele que o Senhor da Esfera te aguarda». Tem sido sempre assim, antes e depois da Cruz

Se querem conhecer Adrão, Soajo e a nossa serra, podem caminhar pelos meus posts. Para já, só vos digo que fica no Alto Minho

10.10.05

Memória de um Combate


Ventor

Quando era pequeno, já trabalhava, pois claro! Em Adrão começava-se a trabalhar desde que se nascia.

Uma vez ia apanhar agriões bravos junto ao rego da água para regar toda a Veiga. Minha mãe encontrou-me junto à cancela da Veiga e deu-me logo uma tarefa! Perguntou-me que ia fazer e eu disse-lhe que ia arranjar comer para os coelhos e agriões junto ao rego. Eu gostava de lavar os agriões no rego e come-los assim passados pela água fresca que vinha do rio. Naquela altura a água do rio era limpinha! Quem dera hoje fosse assim!

“Nesse caso” -disse ela - “podes trazer-me couves da horta da Veiga para o nosso almoço e também para os coelhos”. Nessa altura eu tinha dois coelhos que a minha tinha Florinda da Várzea me tinha oferecido e com eles eu especializava-me todos os dias na bicharada que me acompanhava, dia a dia, na minha labuta.

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O troço do rio ao fundo da Veiga, chama-se rio da Turgueira. Este foi o local do combate

Fui à horta, apanhei as couves e ao sair da horta, sentei-me no socalco da lavoura pendurado para o rio, à sombra de um vidoeiro. Comecei a olhar o poço por baixo e a meditar sobre o meu disparate, sempre que descia o socalco para, mais ou menos a meio, saltar de uma altura enorme para a água em que muitas vezes parecia que rebentava por dentro ao bater no fundo do poço. Em volta do poço e ao correr do rio, haviam umas ervas tenrinhas a que a gente da terra chama carriço e que eu pensava ir a seguir ao almoço com uma foicinha corta-las e leva-las para dar à minha maravilha de poucos meses, uma vitela a que chamava Nova!

Ali, sentado no socalco, observei todo o ambiente e reparei no que nunca tinha visto. A voar sobre o rio, vale abaixo, duas aves de rapina, em pleno combate! Pareciam os aviões que muitos anos mais tarde vi fazer voos de treino aéreo de combate, a brincar, nos arredores da cidade de Vila Cabral, em Moçambique. Mas, para as aves de rapina, a luta ali, era de morte!

Uma águia

Não é a águia real do célebre combate, na zona da Turgueira, em Adrão, mas mete respeito

Uma águia e um milhafre, tinham-se zangado algures e trouxeram a luta para junto de mim. Ali, à sombra do vidoeiro e também resguardado por ele, verifiquei que o milhafre vinha a dar uma grande tareia na águia. Ela voava por baixo com intuito de fuga, e ele picava em voos rápidos sobre ela arrancando-lhe penas da cabeça. Eu via mesmo o milhafre picar e arrancar penas da cabeça da águia e sempre que havia o impacto do milhafre sobre a águia ela descaía no ar, perdendo altura. Por fim, já juntinhos a mim, mas do lado de lá do rio, a apenas uns metros, a águia poisou sobre o pau de uma meda de feno.

Com a águia pousada no pau, o milhafre subia e fazia voo picado sobre ela espetando-se sobre a cabeça dela com uma grande bicada na nuca e a águia continuava pousada a levar tareia e a fazer um esforço enorme para não cair da meda abaixo, afocinhando
sempre que se dava o impacto. Cheguei a pensar que ia levar uma águia morta para casa, como troféu, mas também cheguei a pensar o que fazer para acabar com aquela luta que tanto se assemelhava à célebre luta entre David e Golias de que já ouvira falar. Mais tarde, vim a saber que se tratava de uma águia-real.

Quando pensava que fazer para acabar com o suplício da águia e se preparava para descer o socalco para o rio e espantar o milhafre, julgava que a águia não se iria importar nada mas, nesse momento, ela levantou voo e o milhafre ainda fez uns dois voos picados com arranque de mais umas penas na cabeça dela e quando ele se preparava para fazer mais uma investida sobre a águia, a terceira desde que ela levantara voo, reparei que a águia, ali à sua frente, apenas com o rio pelo meio, inclinou um pouco a cabeça para o seu lado esquerdo, o lado oposto ao meu, para verificar se o milhafre vinha aí. De repente ele faz um grande voo picado sobre a águia que me parecia que com aquela força de violência tal, seria a estucada final na desgraçada da águia. Mas desiludem-se! No momento em que o milhafre picou e se ia dar o impacto, a águia inverteu o voo e recebeu o impacto do milhafre contra o seu peito e, nesse instante, deu-lhe o abraço da morte. Os dois vultos voadores transformaram-se num só e ainda vi, enquanto tive espaço, a águia em voo a picar o milhafre e as penas dele a esvoaçar para trás desse vulto.

A beleza de um Milhafre Real

Foi uma luta que nunca imaginei que se pudesse desencadear com tanta violência e ainda hoje penso que um dos dois deveria ter fugido, mas não. Acho que a águia, desde que eu os vi, estava em fuga e quando parou no pau da meda era para ganhar forças pois via-se que estava cansada e de bico aberto e cheguei a pensar que o fim dela ia ser ali.

Não sei se o milhafre teve conhecimento da luta entre David e Golias e se até, entre eles, também existe uma história semelhante, mas sei que nunca devemos dar numa luta, a vantagem como vitória certa, mesmo quando essa vantagem é bem evidente. Para mim serviu-me sempre de exemplo aquela luta e ainda hoje vive na minha memória. 

Claro que todos poderão pensar que esta história não tem pés nem cabeça, sobretudo aqueles que conhecem bem o milhafre e a águia. Pois foi exactamente assim! Ao poder da águia opôs-se a leveza e a agilidade do milhafre. Todo o combate foi, desde que eu assisti, do domínio do milhafre. Mas há sempre um senão. O milhafre esqueceu-se que as manobras, quando em demasia, podem prejudicar-nos, denunciando a tática. E esqueceu-se, também, que a luta entre David e Golias não tem semelhança pois foi utilizada uma arma ligeira, mas com poder mortífero. Não foi um duelo resolvido à estalada ou à bicada.


As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos meus sonhos e são, também, as montanhas de toda a minha gente

01.10.05

Adrão - Caminhada por Travanca


Ventor

Vou responder aqui a uma pergunta que a nossa amiga Saloia, fez ao meu Quico.

Sim já conheci Travanca. Respondo a ela, ao mesmo tempo que informo as gentes jovens de Adrão, nascidas lá e por outros mundos, como era a nossa vida, a minha e a dos pais deles. Fui lá duas vezes! Há mais de 45 anos. Ainda era miúdo. À terceira vez, mais modernamente, tentei ir de carro, mas a estrada tinha sido estragada por fortes chuvadas.

Há muito, muito tempo, eu fui de Adrão a Travanca, cerca de duas horas a andar bem, pouco mais. Fui buscar uma égua que estava presa na área florestal de Travanca. Era eu e mais dois amigos, um actualmente em Paris e outro, em New Jersey. O dono da égua estava nesse tempo em França e agora estará a recordar-se da nossa vida, junto ao Senhor da Esfera.

Saímos muito cedo de Adrão e fomos ver romper o dia já próximo do Mezio. Levávamos uma égua e íamo-nos revezando pelo caminho, mas eu quis ir sempre a pé! Iria subir à serra de Soajo, à Pedrada, pelo lado oposto. Chegamos a Travanca e fomos pagar a multa da prisão da Rola. Eram 75$00 da multa e depois mais um quanto por dia pela alimentação da égua e ela já lá estava há bastante tempo. O mais velho, o Manuel de Sistelo tinha vindo da América e não a conhecia, mas prometeu ao amigo, o ti Eduardo da Bondeira, que a ia buscar.

Nós, os putos, fomos com ele para ele não ir só. Fazíamos-lhe companhia e éramos nós que iríamos identificar a égua. Mal a vi conheci-a logo e ela a mim. Pagamos, bebemos uns pirolitos na casa do Guarda. Alguém se lembra dessa bebida fantástica de gostosa?

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Travanca está encaixada nessas encostas, que se vêm de S. Bento, Arcos de Valdevez

Depois fui à cerca do guarda e coloquei um cabresto na Rola, e como ela me conhecia, não foi difícil montá-la e tudo correu bem até ao cimo da montanha, do lado esquerdo do rio Ramiscal. Depois foi o diabo! A Rola viu as companheiras e amigas na encosta mais abaixo, guina de repente para a esquerda e desata num galope frenético. Impossível manter-me em cima dela. Malhei no poulo duro e fui rebocado até à entrada nas urzes.

O Manuel do Sistelo, gritava-me para largar a égua senão ela desfazia-me todo ao entrar nas urzes, mas eu não a larguei. No momento de ela entrar na mata das urzes que descia até ao Ramiscal, ela abrandou para circular uma grande moita de urzes e eu tive tempo para dar uma volta ao cabresto num torgo velho de urze. A Rola não podia fugir mais!

Mas não ia ficar por ali! Com os braços arranhados de fazer esqui no poulo, levei a Rola pelo cabresto até à Corga da Vagem. Ali prendemos as éguas numas urzes e fomos almoçar, já tarde, presunto com pão e água (as águas divinas da serra de Soajo, no caso, a nascente da Corga da Vagem). Depois virei-me para o Manuel do Sistelo e disse-lhe: «vamos tirar os arreios à Briosa e colocá-los na Rola, que ela vai-me levar daqui até ao Alto da Pedrada, sempre a galope».

Assim foi. Ele disse-me para ter cuidado senão ainda ficávamos sem a égua e sem os arreios. Mas o cuidado era chegar rapidamente ao Alto da Pedrada! Cheguei lá acima e fui dar a volta ao marco geodésico e, já no regresso, de lá de cima, a Rola vê a Briosa lá em baixo, relincha e começou uma correria frenética outra vez. Ela galgava carqueja e rochas e eu estava a ver que aquele ia ser o meu dia de sorte ou de azar. Mas aguentei firme, montanha abaixo, até 100 metros deles. Aí a Rola meteu todos os travões e eu voei pelas suas orelha fora, caindo no chão como um saco de areia. Segurei-me e fui de rastos mais uma vez até junto da outra.

O presunto que tinha comido fazia todos os possíveis para se manter quieto e sereno e a custo lá conseguiu. Depois descemos toda a serra até Adrão, na paz dos alazões. Foi assim um dia que nunca mais esqueço, a minha primeira ida a Travanca. Da segunda vez que lá fui, fui sozinho, à procura de uma toura que nos desapareceu e que nunca mais vimos. Num dia de muito calor, descobri-a junta com outras e as companheiras dela um pouco mais afastadas e não quis incomodá-la a levá-la para junto delas porque estava perto, ela estava a remoer, descansando.

Não liguei. Abracei-me a ela junto ao Fojo do Lobo e depois de as ter controlado, regressei a casa. Dias mais tarde não a encontrei e procurei tudo, em todas as aldeias em volta da serra de Soajo. Ou o lobo a matou ou, então, foi roubada e levada de contrabando para Espanha. Nessa altura constou-se que houve por lá uns larápios que roubavam gado.


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