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Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

Adrão e o Ventor

Eu nasci na serra de Soajo e Adrão, nas suas encostas, é o meu berço

 

 
Lobo na serra de Soajo
 
Piquenique nas Fontes, em Adrão
 
Último piquenique comigo
 
Último sorriso para mim

26.09.05

As Abelhas


Ventor

Quando era pequeno, íamos tomar banho ao Rio da Leira. A rapaziada toda, desde os mais velhos aos mais caçapinhos, seguíamos em fila indiana, ao lado das formigas e, comportando-nos como elas. Mas se as formigas não nos faziam mal e até, por vezes, seriam esmagadas debaixo dos nossos pés, já com as abelhas era diferente!

No Rio da Leira, tanto quanto me recorde, apenas o ti Brasileiro, o avô da minha prima Rosa Caneira, do Joaquim e da Fátima, tinha colmeias. As colmeias eram feitas com cortiços, feitos da cortiça dos sobreiros. O ti Brasileiro, tirava a cortiça aos sobreiros, cortando apenas num lado, e depois a cortiça era extraída em forma de cilindro. Um corte em baixo, outro corte em cima, à distância pretendida e entre esses dois cortes, horizontais, um corte na vertical.

Depois ele ficava com o cortiço praticamente feito. Mas no mês de Maio, eu lá via o ti Brasileiro todo armadilhado a apanhar os enxames de abelhas que lhe fugiam ou outros que de mais longe, vinham formar-se nos ramos dos carvalhos com as abelhas encavalitadas umas em cima das outras em forma de cacho. Às vezes, eu próprio o informava onde tinha visto um enxame, e lá ia ele, todo lampreiro apanha-lo! Era uma boa cooperação que me valia uns bons favos de mel, na devida altura e alguns frascos de mel pelo ano fora.

 

Eram bastantes as colmeias que o ti Brasileiro tinha no Lume da Leira

Mas do que eu nunca mais me esqueço, é do som das abelhas a voar no meio daqueles cortiços todos, ou então das abelhas que iam à procura de matéria-prima para levarem para as colmeias. O caminho que levávamos para o poço negro, durante todo o verão, seguia pelo meio dos campos e quer pelo rio acima, ou nos campos junto às águas das regas que corriam pelo caminho, só se viam abelhas e se ouvia o seu som característico.

Eu sentia inveja quando via o ti Brasileiro especado no meio das colmeias a tentar apanhar os lagartos que ali se instalavam a tentar apanhar as abelhas e não eram poucas! Eles esmeravam-se todos a apanhar as abelhas e o ti Brasileiro esmerava-se todo a apanha-los a eles.

Por vezes, não muitas, porque as abelhas não são parvas, lá aparecia algum do nosso maralhal, ferroado pelo cu, da abelha e a dizer mal da vida e insulta-las com os palavrões mais ousados dignos de ganhar o prémio da malvadez! Outra especialista a apanhar abelhas, era a raposa. Ela descia por entre os carvalhos e de repente estava infiltrada no meio dos cortiços a fazer os seus estragos.

O ti Brasileiro, tal como o meu amigo Chica, sabiam dizer-me para não me mexer junto das abelhas e diziam-me, sem o sabermos, na altura, que esse seria o melhor método para a formação de um grande homem estátua! Mas eu não tinha jeito para isso e mexia-me bem! Eu penso mesmo que as abelhas não tinham vontade nenhuma de me perseguir, pois se tivessem, estariam fartas de me ferrar e apenas uma vez uma me ferrou, estando eu bem quietinho, de rabo para o ar a segurar uma boa truta debaixo de uma rocha, no rio. Até parece que ela me quis dizer para deixar a truta, pois foi o que aconteceu. A malvada foi ferrar-me numa nádega e numa altura que não o devia ter feito, pois eu estava bem quietinho! Haviam mais abelhas em Adrão, mas ninguém tinha tantas e tanto mel, como o ti Brasileiro. Quem me dera que fosse possível a vida fazer-me repetir os belos tempos que nunca esquecerei.

As Montanhas Lindas do Ventor, são as montanhas da serra de Soajo, da serra da Peneda, da serra Amarela, do Gerês, ... são as montanhas dos seus sonhos e são, também, as montanhas da sua gente