Em tempo de chuva, em Adrão, pelos outonos e invernos, havia sempre que fazer. A prioridade era tratar dos animais. Às vezes a chuva era tanta que até para acender o lume podia ser um problema. A humidade era de tal ordem que não era brincadeira acender o lume para fazer o braseiro que iria aquecer o borralho e, com ele, toda a casa.

 

As achas e os canhotos dos carvalhos ou torgos de urzes, eram o melhor combustível que tínhamos em Adrão. Mas, antes, tínhamos de ter umas chamicinhas bem secas, normalmente de urze, para tirar a humidade às achas, secando-as bem e pô-las a arder até conseguirmos o braseiro desejado. Ainda me recordo da tia Bondeira (quantas vezes), aproveitar uma pausa nas chuvas "bocanho", para atravessar o caminho até à nossa casa e perguntar à minha mãe: "Teresa, já tens umas chamicinhas bem secas ou umas brasinhas"?

 

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 Hoje seria assim, o Ventor transportaria as chamiças se por lá andasse

 

"Àvô estávô! Como eu me vi para acender o lume hoje, tia Teresa! Veja ali debaixo do escano se arranja umas mais sequinhas senão gasta os fósforos todos"! E a conversa continuava sobre o que fosse. Sobre a chuva que nunca mais parava e aquela humidade que nos destroçava os ossos, enquanto cada um tentava resolver a azáfama em que estava metido. Vacas tratadas, porco tratado, galinhas no poleiro e, no meio da escuridão como o breu, só se ouvia a chuva a lavar as telhas e a descer dos telhados em pingas apressadas ou fios de água contínua e, com aquela lenha húmida a arder, libertando os fumes que, atirados contra o telhado, teimavam em voltar a descer como se já estivessem com saudades das achas que tinham abandonado para trás.

 

Depois vinha o "conduto" e de seguida o caldo. Era a altura ideal para fritar os "joaquinzinhos" ou as sardinhas que a tia Pedreira teimava em levar a Adrão, sempre que lhe era possível. Ou então poderia ser o "bolo da pedra", com as sardinhas a pingar por cima de uma fatia ou barrado com manteiga feita pela minha mãe e, de seguida, o caldinho. Quantas vezes, no tempo dos cagordos, machouchos ou cogumelos (como quiserem), eu levava para casa aqueles "larápios", belos chapéus abertos com os quais se faziam uns belos petiscos.

 

Depois da ceia, era assim que chamávamos, em Adrão, ao nosso jantar actual, ninguém queria arredar pé do borralho por causa do braseiro. Eu sentava-me numa cortiça colocada no chão do borralho para não assentar o rabo na pedra fria e, como não tinha nada para fazer olhava o braseiro incandescente imaginando os vulcões de que ouvia falar na Tasca do meu amigo Carrasco, quando ele acendia a telefonia para ouvir as notícias mas, de repente, a minha mãe tirava-me os olhos do braseiro e obrigava-me a olhar a roca e o fuso, levando-me a esquecer os vulcões e tantas outras coisas que já, então, me levavam a penetrar na senda dos sonhos. Ficava todo encantado a ver o fuso, naquela azáfama, numa das mãos enquanto a outra ripava a lã e a puxava da roca em direcção ao fuso.

 

 

A roca e o fuso, tal como em Adrão, em La Rochelle, França, pintada por um homem das Belas-Artes, William-Adolphe Bouguereau

 

"Luis, ajuda aqui"! A roca já não tinha lã e o fuso estava cheio de um grande fio todo enrolado nele.

"Agarra aqui no fuso e não o prendas, deixa-o girar, porque temos de fazer um novelo de lã para a tua irmã continuar a fazer a camisola para o ti António de Ramil, porque dizem que está muito frio, em França. Temos de fazer a camisola depressa porque, se ele vier cá passar o Natal leva-a vestida e se não vier, vamos tentar arranjar quem a leve. Temos de trabalhar muito para a acabar depressa"!

 

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Falta a lã e falta o fuso, mas estamos nós dois (Rosa e Luis) e a roca

 

Olhava para a minha irmã e lá estava ela a mexer aquelas agulhas nos dedos como se estivesse a desenrolar rebuçados. Agulhas nas mãos, o novelo a acabar, metido no bolso do avental, e o fio que saía do novelo e acho que passava por um alfinete de dama que tinha colocado, junto ao ombro, na camisola que tinha vestida. O meu pai sentado no escano de madeira, já a dormitar, deixando que a cabeça quase abandonasse o pescoço e fosse para cima das brasas. A cadela, a nossa violeta, lambia o resto do comer que ainda tinha numa cunca de madeira que eu tinha feito para ela e a minha mãe a dizer: "raio de cadela, lava os feijões tão lavadinhos, com a língua e não os come, nem um"!

 

De repente ouço: "oh, tu! Ainda te esqueces da cabeça. Vai mas é dormir"!

 

O meu pai deu um jeitinho ao corpo para se levantar, observa o lume e diz: "está um braseiro tão bom que nem apetece sair daqui". "Pois não" - diz a minha mãe - "mas, vamos tirar a humidade aos lençóis e com eles secos e quentinhos, vai ser dormir a noite toda".

 

Há dias chovia a potes e eu, deitado na cama quentinha, fui levado pelo barulho da chuva a recordar as minhas noites invernosas da minha meninice, por Adrão. Comecei a recordar esses tempos de chuvas geladas e frias que me faziam bater o dente pelas fraldas das minhas Montanhas Lindas e também a beleza dos braseiros nos borralhos de Adrão, nessas noites longas em que aplicávamos bem o ditado que nos diz: "deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer"! Que saudades eu tenho desses tempos difíceis!

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 20:32