Quando o Ventor era pequeno, já trabalhava, pois claro! Na sua aldeia começava-se a trabalhar desde que se nascia.

Uma vez ia apanhar agriões bravos junto ao rego da água para regar toda a Veiga. Sua mãe encontrou-o junto à cancela da Veiga e deu-lhe logo uma tarefa! Perguntou-lhe que ia fazer e ele disse-lhe que ia arranjar comer para os coelhos e agriões junto ao rego. O Ventor gostava de lavar os agriões no rego e comê-los assim passados pela água fresca que vinha do rio. Naquela altura a água do rio era limpinha! Quem dera hoje fosse assim!

 

“Nesse caso” -disse ela – “podes trazer-me couves da horta da Veiga para o nosso almoço e também para os coelhos”. «Nessa altura eu tinha dois coelhos que uma tia minha me tinha oferecido e com eles eu especializava-me todos os dias na bicharada que me acompanhava, dia a dia, na minha labuta» – diz o Ventor.

 

 

O troço do rio ao fundo da Veiga, chama-se rio da Turgueira. Este foi o local do combate

 

Foi à horta, apanhou as couves e ao sair da horta, sentou-se no socalco da lavoura pendurado para o rio, á sombra de um vidoeiro. Começou a olhar o poço por baixo e a meditar sobre o seu disparate, sempre que descia o socalco para, mais ou menos a meio, saltar de uma altura enorme para a água em que muitas vezes parecia que rebentava por dentro ao bater no fundo do poço. Em volta do poço e ao correr do rio, haviam umas ervas tenrinhas a que a gente da terra chama carriço e que o Ventor pensava ir a seguir ao almoço com uma foicinha cortá-las e levá-las para dar à sua maravilha de mesinhos – uma vitela a que chamava Nova!

 

Ali, sentado no socalco, observou todo o ambiente e, reparou no que nunca tinha visto. A voar sobre o rio, vale abaixo, duas aves de rapina, em pleno combate! Pareciam os aviões que muitos anos mais tarde viu fazer voos de treino aéreo de combate, a brincar, nos arredores da cidade de Vila Cabral, em Moçambique. Mas, para as aves de rapina, a luta ali, era de morte!

 

 

Uma águia real aprisionada no jardim Zoológico

 

Uma águia e um milhafre, tinham-se zangado algures, e trouxeram a luta para junto do Ventor. Ali à sombra do vidoeiro e também resguardado por ele, verificou que o milhafre vinha a dar uma grande tareia na águia. Ela voava por baixo com intuito de fuga, e ele picava em voos rápidos sobre ela arrancando-lhe penas da cabeça. O Ventor diz que via mesmo o milhafre picar e arrancar penas da cabeça da águia e sempre que havia o impacto do milhafre sobre a águia ela descaía no ar, perdendo altura. Por fim, já juntinho do Ventor, mas do lado de lá do rio, a apenas uns metros, a águia poisou sobre o pau de uma meda de feno.

 

Com a águia pousada no pau, o milhafre subia e fazia voo picado sobre a águia espetando-se sobre a cabeça dela com uma grande bicada na nuca e a águia continuava pousada a levar tareia e a fazer um esforço enorme para não cair da meda abaixo, afocinhando
sempre que se dava o impacto. O Ventor diz que chegou a pensar que ia levar uma águia morta para casa, como troféu, mas também chegou a pensar o que fazer para acabar com aquela luta que tanto se assemelhava à célebre luta entre David e Golias de que já ouvira falar. Mais tarde, veio a saber que se tratava de uma águia-real.

 

Quando o Ventor pensava que fazer para acabar com o suplício da águia e se preparava para descer o socalco para o rio e espantar o milhafre, julgava que a águia não se iria importar nada mas, nesse momento, ela levantou voo e o milhafre ainda fez uns dois voos picados com arranque de mais umas peninhas na cabeça dela e quando ele se preparava para fazer mais uma investida sobre a águia, a terceira desde que ela levantara voo, o Ventor reparou que a águia, ali à sua frente, apenas com o rio pelo meio, inclinou um pouco a cabeça para o seu lado esquerdo para verificar se o milhafre vinha aí. De repente ele faz um grande voo picado sobre a águia que me parecia que com aquela força de violência tal, seria a estucada final na desgraçada da águia. Mas desiludem-se! No momento em que o milhafre picou e se ia dar o impacto, a águia inverteu o voo e recebeu o impacto do milhafre contra o seu peito e, nesse instante deu-lhe o abraço da morte. Os dois vultos voadores transformaram-se num só e o Ventor ainda viu, enquanto teve espaço, a águia em voo a picar o milhafre e as penas dele a esvoaçar para trás desse vulto.

 

 

A beleza de um Milhafre Real

 

«Foi uma luta que nunca imaginei que se pudesse desencadear com tanta violência e ainda hoje penso que um dos dois deveria ter fugido, mas não. Acho que a águia, desde que eu os vi, estava em fuga e quando parou no pau da meda era para ganhar forças pois via-se que estava cansada e de bico aberto e cheguei a pensar que o fim dela ia ser ali».

 

Diz o Ventor - «não sei se o milhafre teve conhecimento da luta entre David e Golias e se até, entre eles, também existe uma história semelhante, mas sei que nunca devemos dar numa luta, a vantagem como vitória certa, mesmo quando essa vantagem é bem evidente. Para mim serviu-me sempre de exemplo aquela luta e ainda hoje vive na minha memória».

 

«Claro que todos poderão pensar que esta história não tem pés nem cabeça, sobretudo aqueles que conhecem bem o milhafre e a águia. Pois foi exactamente assim! Ao poder da águia opôs-se a leveza e a agilidade do milhafre. Todo o combate foi, desde que eu assisti, do
domínio do milhafre. Mas há sempre um senão. O milhafre esqueceu-se que as manobras, quando em demasia, podem prejudicar-nos. E esqueceu-se também que a luta entre David e Golias não tem
semelhançapois foi utilizada uma arma ligeira, mas com poder mortífero. Não foi um duelo resolvido à estalada ou à bicada»!

 

Este Ventor quando se põe a pensar, deixa-me maluco!

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 13:00