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Adrão, na Grande Caminhada do Ventor

Adrão, na Grande Caminhada do Ventor


Piquenique nas Fontes, em Adrão

Último piquenique da Maria Bondeira comigo

Último sorriso da Maria Bondeira para mim


Regresso a Casa, 2015


Clicando nesta foto, podem ver as restantes que compõem o Album Regresso a Casa, com fotos dessa minha passagem por Adrão no meu regresso, rumo a Lisboa, em 2015. Também podem clicar na setinha do Flicker e ver as fotos em slideshow


14
Mai12

Mês de Maio ...

Ventor

 ... em Adrão.

Os meus meses de Maio, em Adrão e também em Paradela, agora só fechando os olhos e olhar no meu interior as lápides gravadas nos cantos do meu cérebro. Na prática é assim com tudo.

 

 

Um dos meus símbolos de Adrão - a Giesta. As nossas maias

 

Por Adrão, dependia do tempo, pelos fins de Abril e Maio dentro, havia um perfume intenso! Os cheiros, penetravam pelo nosso nariz, dando origem a um "must", que nenhuma perfumaria consegue apresentar. Desde os "estercos" originados pela fermentação dos estrumes, originada pelas dormidas dos animais e que, pela noite dentro, iam depositando o resultado das suas necessidades fisiológicas, catalisadas pelos calores dos seus corpos, até ao cheiro da terra originado pela evaporação das águas da chuva, especialmente trovoadas e, pela passagem dos cheiros intensos que saíam das belas flores que cresciam por todo o lado, misturado com aquele cheiro que resultava da erva da semeia que se deixava crescer para alimentar as vacas que puxavam os carros de bois e os arados que depois, rasgavam as terras.

Era assim por todo o lado. O Eido, as Brandas de Bordença e da Açoreira, retribuíam-nos, com belos perfumes, aligeirando o cansaço originado pelo trabalho. A maior alegria que eu tinha, nesses tempos, era conseguir dar às vacas que trabalhavam, uma boa ração da erva de semeia ainda verdinha e levá-las beber ao rio e, o maior problema que eu tinha, quando era puto, era o meu pai ralhar comigo quando eu retirava os grilos do rego deixado pelo arado, para as vacas não os pisarem.

Recordo-me perfeitamente do meu pai me gritar, dizendo: "as vacas ainda te pisam por causa dos grilos, Ventor"!

  

 

 Carro de bois, na ilha de Santa Maria, nos Açores

 

Hoje, recordo tudo o que o trabalho e as brincadeiras me proporcionavam. As alegrias, o cansaço, os cheiros, o chiar dos eixos dos carros de bois pela Veiga abaixo, os aros de ferro que protegiam as rodas a bater contra os caminhos pedregosos, os esforços que os animais faziam a segurar o carro nos sítios íngremes, ou a puxá-lo nas grandes subidas dos caminhos.

 

Recordo-me bem como, então, os putos de Adrão gostavam de pedir boleia sem levantar o polegar, como se faz hoje por essas estradas. Seria uma das coisas melhores da nossa vida de crianças andar à boleia, nos carros de bois. "Podes vir comigo, rapaz, para cá, vens no carro". Estou a recordar-me do ti Manuel Rego que sempre me dava boleia. Uma vez, no Carril, ele vinha para casa, com as vacas pela soga e o carro e eu vinha do Lume da Leira. Aproximei-me do carro, por trás e, confiante que dali não viria nenhuma nega, saltei para o carro, muito caladinho, para o surpreender quando ele chegasse ao Eirado. O pior foi que as vacas assustaram-se com o meu salto e iniciaram uma corrida doida e o ti Manel, Deus o tenha no céu, também assustado, saltou para o lado para o carro e as vacas não o atropelarem mas, era no sítio mais estreito do caminho e o eixo, de passagem, ainda lhe raspou uma canela.

 

Toda a gente de Adrão me queria crucificar, até a minha mãe mas o ti Manel Rego, foi a única pessoa que me defendeu. Ele e eu, julgamos que as vacas não fugiram por minha causa mas, talvez, por causa da mosca. Pode ter havido coincidência com o meu salto e com a ferradela da mosca numa das vacas. Elas eram muito mansinhas. 

Mas nunca me esqueço que, a única pessoa prejudicada pela minha acção, se fui eu, foi a única pessoa a defender-me.

 

 
O arado egípcio. Tal como em Adrão, já os egípcios, milhares de anos atrás, aravam a terra para deitar as sementeiras
 
Os estercos transportados nos carros de bois, eram colocados em montinhos espalhados nas lavouras. Depois, eram espalhados com uma forquilha e, por fim, lá ia o arado rasgar a terra. Enxadas no ar, a despedaçar os grandes torrões deixados pelo arado, grilos em fuga e as sementeiras iniciavam-se.
Era aí que eu começava a estudar o problema! Quando via a minha mãe com o milho no avental, metia a mão, enchia-a e espalhava o milho o melhor que podia. Então eu pensava que, poupar o milho, não era boa ideia. No espaço de cinco grãos de milho, seria melhor meter 10 ou 15, pois assim, poderíamos obter muitas mais espigas. Mas, com a caminhada do seu crescimento, vinha a monda, o desbaste, o arranjar do espaço e eu danava-me de não me deixarem realizar a minha experincia de criança.
 
Recordando os meus maios, meti aqui um arado egípcio tentando assim, mentalmente, prestar uma pequena homenagem ao Germano. O Germano era o nome de guerra de um elemento do PCP, esquecido pelos seus camaradas, segundo ele me disse, após a queda do Muro de Berlim e das lutas intestinas desencadeadas no partido de Álvaro Cunhal.
Não me esqueço do que o Germano me disse numa pequena conversa que se tornou bem grande, onde me falou do seu tempo de criança, quando só calçou os pés aos sete anos e, aos 12 anos se pirou da sua "Adrão", ali para os lados da serra da Estrela, de onde veio para Lisboa, passando a partilhar, desde então, dos ideais comunistas.
 
Porquê o arado egípcio, então? Porque o Germano que já tinha tido problemas cardíacos, disse-me que tinha dois sonhos na sua vida! Agora, arredado dos problemas do PCP (Partido Comunista Português) e ter adiado, no Hospital de Santa Maria, o final da sua caminhada, tinha agora de vencer o tempo que os médicos lhe deram de vida, cinco anos de que só sobravam quatro. Só pensava dedicar-se a estudos demográficos sobre a margem sul do Tejo e,  sobre o Egipto, especialmente, a agricultura e, já teria pesquisado o suficiente para dar uma varridela em tudo o que nos contavam do Egipto, especialmente, da sua agricultura e do seu sistema de regas a partir do rio Nilo e demonstrar ao mundo que os egípcios não tinham sido esclavagistas.
 
Quem me dera estar enganado mas julgo que o Gemano já terá sido levado à presença do Senhor da Esfera. Se estiver enganado, assim espero, ainda terei oportunidade de um dia, ver por aí um estudo, sobre a agricultura dos grandes Faraós.
Talvez assim, observando os arados egípcios e os lagos artificiais, junto às margens do rio Nilo, me ajude a esquecer dos nossos Maios e dos nossos regos, como o da Açoreira.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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