Faz hoje 42 anos! Não estava, em Adrão, estava em Vila Cabral!

 

Em Vila Cabral, sonhava com tudo que deixara para trás. Agora continuo a sonhar com tudo que fui deixando para trás. Sonho com os que nos deixaram e sonho com todos os que fui perdendo.

Ontem falei ao telefone com a minha irmã e estava toda contente com umas pantufinhas que lhe mandamos feitas de pele de carneiro alentejano. Na conversa do quente e do frio, ela acabou por me falar do frio que passávamos em Adrão, noutros tempos e noutros invernos e, por fim, diz-me isto: "como conseguimos sobreviver àquele frio todo? Ainda há dias vim de lá toda gelada, vi-me e desejei-me para tirar aquele frio dos ossos. Ai que terra aquela"!

 

Pois é! Que terra aquela que nos levou todos a abandoná-la! Mas, que terra aquela que não sai do nosso espírito e possui um íman poderoso que nos puxa para trás!

 

Recordo-me dessa terra, Adrão, como tudo que houve de melhor na minha vida. O íman partiu-se mas mantém umas linhas de força magnetizadas que continuam a puxar. Linhas que não vemos mas que nos continuam a ocupar o cérebro permanentemente e a rebocar-nos até lá.

Nunca encontrarei melhor calor que o que os canhotos da Açoreira a arder, no borralho, na véspera do Natal. Talvez essas linhas de força nunca cheguem a acabar pois nós estamos vivos e, enquanto vivos, o passado faz parte dessa vida e ele não morre!

 

Nem o passado, em Adrão, nem noutro lado qualquer.

 

 

Um dos meus presépios preferidos, num recanto da Amadora

 

Tal como Adrão, há outros locais que usam as mesmas linhas de força e me puxam!

Neste momento lembro-me de um passado diferente. Lembro-me de Vila Cabral, no Niassa, Moçambique, já vão 42 anos e todos os anos, pelo Natal, este dia está sempre na minha cabeça. Em Adrão, não fazíamos a Árvore de Natal. Eu nem sabia o que isso era, enquanto lá estive. Até aos 15 anos! Este ano não fazemos a Árvore de Natal. Vou passar o Natal um pouco à moda de Adrão - sem Árvore!

 

Mas, 42 anos atrás, eu travei a guerra do pinheiro, da árvore de Natal! Isso já fez anos nos dias que passaram. 42 anos atrás, no dia de hoje, todos para quem mandei os pinheiros, já tinham a Árvore de Natal feita.

 

No dia correspondente ao de hoje, com quarenta e dois anos em cima, foi outra conversa. Tínhamos a nossa árvore feita e eu já tinha estado junto dela. Toda a zona de Vila Cabral estava sob uma forte trovoada. Eram raios que cruzavam os céus e pareciam querer incendiar tudo. O ribombar dos trovões era infernal. Estávamos embrulhados num mundo de fogo e som! Espreitava pela janela do Posto de Rádio e preparava-me para desligar os emissores. Do meio dos raios e do barulho do ribombar dos trovões, explodiu um poderoso morteiro algures à nossa volta!

Mau! Isto não tem nada a ver com os trovões! Bom! Bom! Bom! Era longe mas parecia perto! Eram bom-bons a que não estávamos habituados.

Estou lixado! Se desligo os emissores perco o controlo desta coisa toda, se os mantenho ligados, os relâmpagos pegam-lhes fogo e fico sem eles! Também naquela guerra, não haveria grande necessidade de manter os emissores ligados. Desliguei tudo. O som dos trovões e a morteirada ouvia-se como se fosse quase em cima de nós!

Foi essa a sensação dos nossos vizinhos do lado, a Companhia dos Comandos que se partiu ao meio para vir em socorro da Força Aérea e foi essa a sensação de uma companhia que chegara do mato ao Batalhão de Vila Cabral, uns já a dormir e outros deitados à espera do João Pestana. O Capitão que comandara essa companhia, já há algum tempo, nas montanhas de Vila Cabral, saiu do Café Planalto a correr, entrou nas casernas dos seus homens e gritou: "a Força Aérea está a ser atacada, preparem-se para o combate"!

 

Alguns daqueles homens atravessaram a cidade de Vila Cabral ainda a vestirem-se, nas viaturas, prontos para empunharem as G-3's. A rodagem das viaturas nas ruas de Vila Cabral acordou toda a gente que, espantados, ouviam os morteiros no ribombar da trovoada tormentosa. Saí do Posto de Rádio, em calções, em sapatilhas de praia, camisa fora das calças e fiquei logo todo encharcado, para tentar ajudar os comandos a ficarem o mais bem instalados possível e, de seguida, ajudei a arrumar as viaturas do Capitão X (não recordo o nome) que vinha em nosso socorro.

 

Já nós tínhamos percebido que o ataque à morteirada era para os lados de Nova Madeira e todos vaticinávamos a hipótese dos turras, nossos amigos de estimação, se aproximarem de nós.

Voltei ao Posto de Rádio e atendi o telefone que não parava de tocar. Acabei por atender várias chamadas de mulheres da cidade de Vila Cabral em que as palavras de ordem principais eram, "aguentem-se". "Vocês estão a ser atacados! Aguentem-se, se vocês não se aguentarem estamos perdidos"! Era o que estava em vigor na ordem do ... da noite!

 

A minha lábia psicológica funcionava tentando acalmar aquelas senhoras que nos ligavam. Já bastantes tinham telefone, na altura, porque não terminavam. Algumas voltavam a ligar de seguida, mas há uma chamada que eu nunca mais vou esquecer. Esta chamada ou veio da esposa do Governador Civil, o então Coronel Melo Egídio que Deus já levou ou da cunhada, não me recordo qual delas, mas isso é irrelevante, relevante, foi a palavra "Bolo-Rei"!

 

 

O menino do presépio, em cima, que creio terá sido roubado. Não tenho a certeza se foi este. Há malta que rouba tudo, é pena é não serem apanhados, metidos entre duas rabanadas e serem dados a comer ao cão Cérbero que guarda as portas do Hades (Inferno)!

 

"Aguentem-se que se Deus quiser, as mulheres de Vila Cabral irão fazer para vós, amanhã, o melhor Bolo-Rei do mundo"!

 

Agradeci, pedi-lhe para ir dormir descansada e quando pousei o telefone, disse para os que estavam junto de mim. Amanhã vamos ter Bolo-Rei e tudo, só espero que não venha com morteirada!

 

Mas no meio da trovoada, da morteirada que caía sobre os nossos amigos cabo-verdianos e outros, de Nova Madeira, era criado um espírito de Natal que, na verdade eu ainda não tinha conhecido. Estava farto de árvores de Natal, de rabanadas, de arroz doce, de bolo-rei, de coisas boas e, nesse instante, não lembrava nada disso. Foi o medo, sem motivo, daquelas mulheres, o seu incitamento à resistência, a palavra bolo-rei que nos envolveu num espírito de Natal que nunca esquecerei.

 

Para todas elas, sonhando ou acordado, para todas aquelas que ainda resistem, deixo aqui, em mente, os votos  de  um Bom Natal para todas, cheio de tudo de bom e com muito Bolo-Rei, tal como deixo para toda a minha gente de Adrão!

Bom Natal Amigas e Amigos de Sempre.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 19:21