Caniços, canastros, espigueiros ...

 

 

Espigueiros em Adrão - no Cabo do Eido

 

 

Espigueiros na eira comunitária de Soajo

 

Quando eu era pequeno, se calhar, vivi a vida do inca!

Não é por acaso que sinto uma predilecção pelas gentes incas. Em Adrão, no século passado, pelo menos, até finais da primeira metade, vivemos a cultura do milho, a cultura da batata, a cultura do feijão ...

Mas, a cultura do milho foi aquela que mais profundamente me marcou. A cultura do feijão era um complemento da cultura do milho, pois os feijões eram também semeados no meio do milho e era, por vezes, o próprio milho que lhe servia de suporte como estaca.

 

Tudo começava em Abril!

Era em Abril que começávamos a tirar o esterco das cortes que, durante o ano, noite após noite, os matos ali colocados para fazer as camas dos animais, tinham sido fermentados por vacas, cabras, ovelhas, porcos ...

 

Mas a cultura do milho nunca terminava. Não nos dava tréguas!

O roçar dos tojos, dos fetos, algumas carrascas, ... engabelar, colocar uma pedra em cima para que o vento não espalhe o mato, deixar secar e, por fim, transportar às costas ou em carros de bois, colocá-lo junto à corte e, usá-lo conforme as necessidades, para manter as camas dos animais limpas e para que as camadas inferiores se fossem fermentando, transformando-se em adubo ou, como vulgarmente dizíamos, esterco.

 

Depois, por Abril - Maio, tirava-se o esterco das cortes para fora e, para não variar, era transportado em cestos de vergas ou em carros de bois, sendo colocado, estratégicamente, em montículos, pelas lavouras para serem lavradas ou sachadas.

Depois, quando  vinha a lavra, duas vacas, duas pessoas e um arado e, sem ais nem uis ou, então, com muitos ais e muitos uis, revolvia-se o terreno.

Por fim vinha a sementeira. Semeava-se o milho, sachava-se a terra à força de pulso, gradava-se com duas vacas, duas pessoas e uma grade.

 

Depois de tudo concluído, começava o germinar do milho a furar a terra, uma das minhas alegrias, pois eu começava sempre a contar os pés que furavam a terra. Começávamos à espera das chuvas ou não, conforme o andamento do meu amigo Apolo. Depois, pelo fim da primavera e pelo verão fora, continuava-se com o trabalho, sempre continuado e vinha a monda do milho, as sachadas, as regas, as sementeiras das ervas para o gado para que, durante o inverno, haja reforço de ervas frescas nas lavouras para os animais.

 

 

O rego que leva a água para regar a Veiga , desde o poço da ponte

 

As regas eram fundamentais para se conseguir colheitas razoáveise eram feitas tanto de noite como de dia. De noite eram necessárias duas pessoas. Uma para regar e a outra para alumiar com uma lanterna de petróleo ou outro tipo. A mim, tocava-me a utilização da lanterna para alumiar a minha mãe e, por vezes, uma das minhas tias que me pediam para lhes fazer companhia alumiando.

 

Por fim vinha o corte do milho, a sua colocação em medeiros para secar e, depois, as esfolhadas, separando as espigas da palha, colocando as espigas espalhadas para secar e fazia-se a meda da palha em volta de um pau, mantendo ali a palha de milho enquanto necessário, até ser transportada para o palheiro, servindo para, no inverno, alimentar o gado com o reforço de uma ceia.

 

Sempre que o meu amigo Apolo permitia, deixava-se secar as espigas que, posteriormente, seriam colocadas em cestos ou sacos de zarapilheira e transportadas às costas para os caniços, ou canastros - os tais espigueiros.

Como podem ver, mostro aqui como todo o ano é dedicado à cultura do milho! Todas as outras culturas, tal como as batatas, os feijões, as couves, a cebola, o centeio ... etç., eram acessórias.

Até a cultura do vinho, em Adrão, era acessória pois ninguém gostava de ver as suas belas lavoiras de milho, prejudicadas por videiras penduradas nos sucalcos, também estes à inca.

 

Todas as áreas de montanha, com maior ou menor grandeza, são preparadas à inca. O sistema de sucalcos, o sistema de rega, tudo muito rudimentar - mas à inca.

Adrão dispunha e dispõe de caniços, em eiras, como a Eira da Leira, a Eira de Outeiros a Eira da tia Saloia e, em eiras ou fora delas há, ou havia, caniços em Adrão por todo o lado. Serão certamente tantos como os célebres 24 da Eira Comunitária de Soajo, mas Soajo tem outros caniços espalhados por lá.

 

Lembrei-me de vos falar aqui dos caniços ou, se preferirem, espigueiros, porque eles são, fundamentalmente para guardar o resultado da cultura do milho - as espigas!

 

Falo aqui dos caniços ou espigueiros porque, em Agosto passado, quando tirava fotos da estrada sobre essa bela branda de Adrão, a que chamamos Bordença, reparei num dos seus caniços de outrora, um caniço solitário, que parecia dizer-me: «Ventor, tu um dia partirás para sempre e eu aqui permanecerei, enquanto me deixarem, à espera que a cultura do milho regresse. Será que alguma vez voltarei a guardar as espigas de milho cá dentro, Ventor»!

 

Não me admiraria nada que uma pequena, média ou grande convulsão, a nível de grandes regiões, continental ou até mundial, venha um dia a devolver as gentes de Adrão ou outras, à cultura do milho.

 

Se um dia isso vier a acontecer, quem sabe, os espigueiros de Soajo, de Adrão e muitos outros, recordarão sempre que, quando o Ventor os olhava, o seu olhar era uma forma de agradecer àqueles monumentos de pedra a sua lealdade na guarda e conservação do nosso milho ... do nosso pão.

 

 

O moinho da Ponte, um dos vários moinhos que Adrão já teve

 

Depois tiravam-se as espigas do caniço, conforme as necessidades, debulhavam-se de várias formas, levava-se o milho ao moinho, onde era moído e transformado em farinha e farelo que depois se transformava em pão.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 22:04