Era uma vez ...

 

Todas as histórias, normalmente, começam assim! Ou "once upon a time" ... ou ...

 

Mas esta minha história é verdadeira e, certamente, perpassam pela minha mente, muitos saltos mas, todos eles, baseados apenas num ... o Salto!

 

O salto, nos meus tempos de menino e moço, criado com muitos outros, como lobos, pelos trilhos das minhas belas montanhas, tem aqui dois significados que nunca irei esquecer. Na minha região, bem dentro das minhas montanhas lindas, há poucos anos, esse Salto terminou para sempre! A Barragem do Alto Lindoso extirpou definitivamente o primeiro Salto. Agora, o outro Salto, depende da vontade dos homens.

 

Claro que, num e noutro, falo-vos de "contrabando". Mas apenas num contrabandito que fazia, então, parte da luta pela sobrevivência das gentes das aldeias que me viram crescer.

 

Vou falar-vos aqui do Salto que tinha de se dar no rio da Váezea.

 

 

O Salto ficava, algures, no centro desse braço da Barragem do Alto Lindoso. Devo ter, algures, uma foto ou slide por aí, mas não sei ao certo se ainda existe. Quem me dera!

 

No rio da Várzea havia um local de passagem - o Salto - para se passar para o lado de Olelas, lugar do lado da Galiza e onde a minha gente se ia abastecer, além de outros sítios galegos por ali perto, com produtos fundamentais como bacalhau e outros que, por razões várias não havia do nosso lado ou porque não havia mesmo ou porque se tornava muito caro para as gentes que viviam sem dinheiro ou com muito pouco ou então porque existiam muito mais longe que esses locais da Galiza. De Adrão aos Arcos de Valdevez eram um pouco mais de 4 horas e mais 4 para voltar carregados. De Adrão a Olelas eram duas horas e isso siginificava mais duas de retorno com carrego. Isso dizia tudo, mas havia também o valor do câmbio de cerca de um escudo para duas pesetas. Dependia.

 

Por isso vou contar-vos a história que a minha mãe me contava da única vez que por lá passou e em que posso utilizar a forma dos tais dois em um, porque eu também lá estava!

 

- Numa determinada altura, antes de eu nascer, era preciso ir ao bacalhau à Galiza, mais precisamente, a Olelas. O meu avô falou com um amigo de Olelas e perguntou-lhe se lhe arranjava determinados produtos que alguém os iria lá buscar à primeira oportunidade. O meu avô tinha 7 filhos, dos quais, uma filha estava casada na Várzea e como era preciso fazer pela vida, era ela que, normalmente, dava os "saltos" pela família! A âncora era em Olelas.

 

A minha mãe dizia-me que ficava aterrada por saber que a irmã tinha de dar o grande salto no rio da Várzea, tantas vezes com o rio cheio, transformado num dilúvio e ela dar o tal salto com as coisas à cabeça, sempre a pensar que o salto era demasiado longo para as suas pernas já cansadas da descida da montanha ou da ida e da volta até Entrimo. Mas essa minha tia, a minha tia Florinda, era dura e fazia essas caminhadas, junto com outras, pela família.

 

Um dia, por portas e travessas, a minha mãe teve de se deslocar a Olelas buscar as tais coisas que o meu avô tinha pedido. Claro que "este menino" foi com ela! Lá fui embaladinho naquele "oceano" que vocês conhecem e que serve como nossa primeira cubata.

 

Ora, nos lugares da Várzea, de Paradela, de Tibo, da Peneda, etç., haviam Postos da Guarda Fiscal que, como muito bem sabiam e podiam, tentavam controlar todos os saltos dados pelas minhas gentes. Mas, tanto quanto sei o Salto da Várzea, em certos momentos do ano, eram controlados exasperadamente, e por isso, para leigos como era a minha mãe e eu, claro, instalado na minha bela cubata, fomos a Piece of kake para a Guarda Fiscal.

 

Havia sobre a beleza nocturna do rio da Várzea uma luz de luar sumido que a minha amiga Diana teve o cuidado de pôr no nosso caminho e que permitiria dar o salto com alguma àvontade, mas era preciso deixar que os guardas se distraíssem ou dormitassem. Claro que a minha mãe, que não percebia nada daquilo, avançou "à trouxe mouxe" e, tentou o seu 2º salto. O salto do regresso ao lado da Luz. Entre as rochas desse local chamado Salto, havia um sítio em que a água parecia uma panela a ferver e era sobre essa panela, em sentido figurado, que era preciso saltar. Mas com a barriga cheia por um fedelhinho como eu, com o bacalhau à cabeça, o cansaço da caminhada e sei lá que mais, começou a tagarelice de uma pessoa que denuncia ao mundo a "desgraça" em que se meteu!

 

"Alto"! ... "Alto ou atiro"!

 

A minha mãe conheceu aquela voz!

 

Era a voz de um amigo! Era a voz de um guarda que não recordo o nome, mas conheci em pequeno um pouco mais tarde e tive uma pequena guerra, em Paradela, com os filhos dele. Eram três contra mim. Eu fiquei com a cabeça a sangrar e o filho mais velho dele também, e meteu o rabo entre as pernas e foi a correr para casa fazer queixa ao pai. Eu ia limpando o sangue com as mãos infestadas e não fui para casa só para não ouvir a minha mãe. Depois, do meio de uma horta vi o guarda dirigir-se para a nossa casa e ir falar com o meu pai e dizer-lhe a peste que eu era. Enchi-me de coragem e dirigi-me a casa. Olhei o grande loureiro, (pensando como era bom ser grande) que existia junto à casa e desci umas escadas da porta de trás. Fiquei a olhar os dois e mostrei a minha cabeça. Disse-lhe: "ele partiu a minha cabeça e eu tive de partir a dele. Não parti a dos irmãos mas estive quase para parti-las todas, porque eles atiravam para não falhar"!

A conversa acabou ali e o guarda foi ensinar o filho a ser homem.

 

Mas, voltando ao Salto, a minha mãe gritou a dizer-lhe que não queria cair ao rio, mas que ia lançar tudo fora e que a deixasse ir para casa, porque estava cheia de frio e não queria saber do bacalhau para nada nem que nunca mais comesse bacalhau pelos Natais!

 

O guarda sorriu e perguntou-lhe se era a Teresa de Adrão. Ela disse-lhe que sim. "Que raio fazes aqui moça"? - Perguntou-lhe ele. Fui buscar as coisas que o meu pai encomendou. É bem mais perto do que ir aos Arcos e eu vim buscá-las. Mas nunca mais passarei este rio!

 

O guarda e o seu companheiro foram até meio do rio e pegaram nas coisas da minha mãe e passaram-nas para o lado de cá, ao mesmo tempo que a ajudaram a dar o Salto.

"Vais dormir a casa da tua irmã"? Perguntou-lhe o guarda.

Sim!

"Então amanhã, bem cedo, pega nas tuas coisas e vai devagar, montanha acima, pois tens um bom carrego para levar até Adrão. Quando chegares à Cascalheira, tudo será mais fácil".

O Guarda Fiscal olhou-a bem cheia de medo e disse-lhe: "agora vai. Nós não vimos nada! Dá cumprimentos ao teu pai".

 

 Esta é a história do medo que a minha mãe me contou, algumas vezes e dizia-me como esse guarda tinha sido bom.

Esta é uma pequena história semelhante a tantas outras muito mais complicadas. Houve tempos em que algumas mulheres das minhas aldeias dormiam com as suas trouxas entre as urzes, como os lobos, à espera que os GF's se retirassem, para conseguirem levar a água aos seus moinhos que é o mesmo que dizer: "levar o pão e o bacalhau para a família".

 

Claro que ali ninguém fazia contrabando a sério, como seria, segundo diziam, nas regiões com mais população, como Monção, Melgaço e outras em que o contrabando tinha objectivos de maior siginificado económico - o lucro.

 

Ouvi então a história de um homem que foi abatido pela Guarda Fiscal para os lados da Peneda, segundo penso, porque lhes terá fugido e, desde então, sempre tenho pensado na vida que essas gentes levavam para sobreviver e no dilema da luta entre o gato e o rato ou, então, entre os contrabandistas de meia tigela e os guardas fiscais de então.

 

Mas, o mais importante desta história, foi a minha amiga Diana ter-me contado que, inculcou na cabeça do Guarda a vontade de ir ajudar a minha mãe para sobrevivência do seu amigo Ventor.

 

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

Ventor, nas suas caminhadas | Divulga também a tua página

sinto-me: mal
música: The Rising de bruce Springsteen
publicado por Ventor às 23:10