... passada na serra de Soajo, nas minhas Montanhas Lindas, num local chamado Guidão.

 

 

Esta história desenrolou-se, algures, junto dessa zona verde. O último monte é o monte Gião, frente ao Mesio e, segundo alguns especialistas, será uma das áreas mais ricas, na Europa, de monumentos megalíticos (?)

 

Adrão em Julho e Agosto de 2006

 

Quando eu ainda era pequenote, contaram-me algumas histórias e dentre todas elas, algumas eu nunca esqueci, tal como esta que me falava de um combate.

Falaram-me, então do tempo em que ainda havia javalis na serra de Soajo e esse tempo, já era o meu tempo!

Essa história falava-me de dois animais. Um de tanto que ouvia falar, eu sabia mais ou menos de que se tratava: era o lobo. O outro, que já ninguém recordava, diziam-me que se tratava de um javali.

Como eu não sabia o que era um javali, disseram-me que era uma espécie de porco, como os nossos porcos, mas bravo e mais feio. Claro que eu imaginei logo o nosso porco a lutar com os lobos.

 

Então, fiquei a saber que, nos tempos em que eu nasci, segundo me contaram os meus velhos companheiros de outras caminhadas, ainda haviam corsas e javalis nas minhas montanhas lindas e, eles me falavam desses animais como já "exterminados" ou, excepcionalmente, haveria uma ou outra corsa, no Rio da Fraga, mesmo junto ao lugar de Adrão que viam as cabras á chegada da noite, descer rumo à Barreira.

 

Mas eu fixei bem esta: a luta entre o lobo e o javali!

 

O javali foi perseguido por um lobo e entrincheirado num local onde decidira lutar. Mas, no princípio, só viam um javali e um lobo. O lobo que perseguia o javali. Depois de uma grande luta em que o lobo tentava cansar o javali, os dois homens, um de Soajo e outro de Adrão, entrincheirados, no matagal, no meio da encosta debruçada sobre o local da refrega, um local a que chamam Guidão, viram sair do meio das urzes, do lado oposto ao seu, outro lobo que se foi aproximando lentamente do local onde se desenrolava o combate.

 

Este segundo lobo aproximou-se lentamente mas, de repente, atacou o javali com ímpeto e o javali já cansado acabou por ser morto na contenda, agarrado por um ou por outro até ficar sem forças. O javali seria já velhote e provávelmente o último javali, pois a partir de então, nunca mais teria sido visto um javali na serra de Soajo.

 

Esta história foi-me contada nos anos 50 quando já ninguém via javalis por lá.

 

Mais tarde, quando regressado de África,  já conhecedor dos primos do javali a que chamam facocheros, encontrei, no Mesio, uma javali com a sua ninhada, dentro de uma rede junto da casa que tinha sido do regime florestal, noutros tempos.

Na sequência da instituição do Parque Nacional da Peneda-Gerês, em 1971, alguém terá reparado que algo faltava na composião da fauna das minhas montanhas lindas e lembrou-se dos javalis, resolvendo que elas fossem povoadas por essa espécie desaparecida dos seus vales.

 

 

A parte colorida é o mapa do Parque Nacional da Peneda-Gerês

 

Mais tarde,  pela mudança do milénio, andava com o meu amigo Ferrada ás castanhas nos castanheiros do Mesio e encontramos o chão cheio de folhas de castanheiros mas limpo de castanhas. O meu amigo Ferrada, caminhando sobre canadianas, levantou uma e apontou os dejectos de javalis dizendo: «os nossos amigos já cá estiveram e levaram-nos as castanhas».

 

Sempre que eu ia dar as minhas caminhadas pelos montes das minhas brincadeiras de criança, diziam-me para ter cuidado com os javalis e, na verdade, cheguei a ver sinais deles como pegadas e locais fossados, mas nunca cheguei a ver nehum.

Com o incêndio de Agosto de 2006, pode ser que alguns javalis tenham sido apanhados ao tentarem esconder-se do fogo. Estou a pensar em locais como o do velho javali do Guidão, porque os que tiveram oportunidade de fugir ao fogo terão podido passar-se para os locais onde o fogo não entrou, como os montes da Assureira (onde me dizem que há muitos) e outros. Os do Mesio poderão ter fugido para os lados do Monte Gião, e pelas encostas de Soajo.

 

 

Esta história ter-se-á desenrolado, nos montes, entre o Mesio e Adrão, nos montes a que eu tenho chamado, os montes de Bordença. Adrão situa-se a Norte de Soajo e a Nordeste do Mesio

 

Assim, caso hoje ainda haja, realmente, combates entre lobos e javalis, como em tempos de outrora, esses combates serão travados nos montes mais lindos que, nos meus tempos de criança, se enfeitavam de rosa (ericas e urzes) ou amarelo (tojo), para mim.

 

Mas há uma parte desta história que eu já não recordo e farto-me de pensar nela. Quem terá ficado com a carcaça do velho javali? Os homens ou os lobos?

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 23:39