Como seria em Adrão, hoje?

Hoje não sei mas, noutros tempos, o tempo dificilmente seria igual a este, limpo e cheio de sol como aqui pela zona de Lisboa. Mas poderia ser assim:

- admitindo que estaria sol, nesta véspera de Natal, talvez o frio estivesse presente. O sol iria ao Marco d'Além e eu estaria a agarrar a minha vara de carvalho e dirigir-me-ia à janela para dar uma última espreitadela às minhas vacas. Observá-las-ia na sua caminhada desde o Poulo do Grilo, umas pela parte de cima do caminho e outras por debaixo, todas a raparem os últimos tufos de ervas, esquecendo-se que iriam ter uma bela ceia de Natal, e levarem a barriga mais aconchegada.

 

Confirmada a sua posição, eu seguirira de vara na mão, pelo Carril, Porto d'Além, carvalhos do Valente, Marco, Corga das Estacas e, já com o sol a apassar o Alto do Gondomil, aproximar-me-ia das companheiras da minha Grande Caminhada.

 

Elas olhar-me iam, dariam umas passadas em minha direcção enquanto eu, com a vara metida debaixo do braço, normalmente o esquerdo, iria esfregando as mãos, para fazer o sangue circular mais rápido aquecendo-as, iria falando com elas, chamando a candogueira da Briosa que se deixava ficar sempre para trás para conseguir mais umas dentadas. Depois, enquanto as outras se perfilavam no caminho, já a pensar na corte, a Briosa daria umas passadas mais rápidas em minha direcção e, como a pedir desculpa pelo atraso, iria passar aquela língua áspera pelas minhas mãos, fazendo sempre promessas de menina bem comportada.

 

 

Esta não é a minha Briosa de outrora, mas a sua imagem faz parte do sonho vivo de sempre

 

Eu abraça-la-ia, encostaria a minha cabeça à dela como para dar uma marrada e dir-lhe-ia: «anda, minha Briosa, vamos»!

A Briosa colocar-se-ia a meu lado e, os dois, estugaríamos o passo atrás das outras, enquanto eu iria olhando o único mundo que conhecia então: «As Minhas Montanhas Lindas»!

Caminhávamos em direcção da aldeia, da corte, da casa, ... e iria observando as fumarolas que já saíam debaixo dos telhados, sinal de que o "canhoto" do Natal já começava a arder. Ao entrar na aldeia, o perfume dos fumos nunca mais me largava. Meteria as vacas nas cortes, iria buscar as suas rações bem avantajadas e, enquanto eu me dirigiria para casa, elas desfaziam o seu grande jantar da sua noite de Consoada.

 

Quando chegasse a casa gelado, com as mãos negras de frio, sentar-me-ia numa cortiça junto do grande braseiro que entretanto se fizera, a queimar o canhoto e as axas de carvalho, e ouviria a minha mãe dizer: «cuidado, Ventor, com as frieiras»!

 

Entretanto, eu observaria esfregando as mãos, como a minha mãe passava aqueles pedacinhos de pão de trigo pelo ovos batidos e os colocava na frigideira esturricando-os, enquanto os que de lá tinham saído eram pulverizados com açúcar e canela e colocados em pilha, prontinhos para serem comidos. Era a minha grande brincadeira de Natal. Comer as belíssimas rabanadas que nunca mais tive iguais! Então eram feitas com metades dos papossecos de Soajo, agora são feitas com rodelas de cassetes de pão feito à pressa que não me diz nada. Nem cheira a trigo! Também o arroz doce era meu companheiro de todos os natais. Depois de ficar bem quentinho, de ver as rabanadas prontas e o arroz doce, lá começava a sair a "grande ceia"!

 

O sempre fiel amigo, o bacalhau, lá saltava do pote de ferro para uma travessa, junto com belíssimas batatas, couves e belas cebolas cozidas. Tudo fumegava! Tudo era gostoso! Até o nosso vinho, feito na Assureira, era o melhor vinho do mundo!

 

Depois da grande Consoada, no meu tempo de menino e já moço, iríamos visitar as pessoas de família e algumas famílias mais chegadas, desejando-lhes um Bom Natal e votos de um Ano que vinha aí, cheio de tudo que fosse bom para eles.

 

Para mim, não havia, então, qualquer problema relacionado com o Natal. Nem havia prendas de qualquer tipo, brinquedos, fosse o que fosse ... Não! Eu tinha uma prenda todos os natais que me lembro! O meu padrinho vinha de França e trazia-me qualquer coisa. Umas botas, uma camisola, fosse o que fosse ... Nada de brinquedos!

Que me lembre, vivi sempre à homem, não tenho recordações de criança, como um dia terão as actuais crianças. Mas se eu hoje tivesse oportunidade de recomeçar, voltaria aos primórdios e cantaria a canção de John Denver: «Thank God I'm a Country Boy».

 

Hoje, os meus natais, são feitos das recordações de outrora. À volta da minha mesa estarão todos os que perdi, até hoje, mais os que não podem estar presentes.

 

Lembro-me de perguntar à minha mãe porque fazia tanto arroz doce e de ela me dizer que era para as alminhas da nossa gente poderem comer também. Eu não me levantava sorrateiro para ver se tinha alguma prenda no sapatinho, mas para ver se as alminhas tinham comido do nosso arroz doce. Lembro-me de deixarem um prato ou dois onde tinham começado a comer para eu ver que era verdade e de eu dizer. "Esta parte foi o avô que comeu"! "Pois foi meu filho, eles vieram comer das nossas coisas. Vêm todos os natais"!

Ainda hoje eu gosto que eles comam do meu arroz doce!

 

Tudo isto, para vos dizer que a vida está sempre a mudar, e mude para melhor ou para pior, não esqueçam que o Natal tem uma função para além do factor comercial. Façam por viver o vosso Natal e sejam felizes.

 

Para toda a gente de Adrão espalhada pelo mundo e todos que por aqui passam, os meus votos de um BOM NATAL

 

BOM NATAL PARA TODOS e com um grande abraço para os Malinos pela amabilidade de me enviarem um e-mail com um olá especial. Um, «olá, Ventor», marcando a sua presença!

 

 

Que os vossos tambores, as vossas caixas, as vossas gaitas e as vossas lindas concertinas, se façam ouvir no Mundo Inteiro e que o vosso sorriso seja espalhado por bons ventos.

 

Que as Festas vos animem sempre.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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música: Take me Home Country Roads
publicado por Ventor às 18:48