Nos montes frente a Adrão, fica o Marco d'Além.

 

 

O Marco D'Além

 

Quando os raios do meu amigo Apolo  começavam a despedir-se de nós, trepando esses montes, as moças de Paradela começavam a perder o brilho, nas festas de Adrão. Quando eu era ainda uma criança, ouvi esta cantiga que nunca mais esqqueci:

 

Lá se vai o Sol ao Alto,

Metido numa panela.

Lá se vai o brio todo,

Das moças de Paradela.

 

Foi assim que, uma vez, quando eu era ainda criança, vi terminar uma festa em Adrão. Tudo começava quando o meu amigo Apolo fazia deslizar o seu manto a partir do Marco d'Além rumo ao Alto do Gondomil.

 

Mas o Marco d'Além, não se limitava a dar início ao fim do brilho das moças de Paradela. Era muito mais que isso. Ele era o relógio de Adrão!

Nas festas, o sol subia o monte e marcava o início das retiradas de todos que ali se tinham deslocado para se divertir ao som da fanfarra, da gaita galega ou dos alti-falantes de Santa Marta de Portuzelo.

 

 

O Marco D'Além parece o guardião de Adrão

 

Todos os dias o Marco estava presente na cabeça de todos. Ele era determinante no dia a dia das gentes de Adrão, especialmente dos mais velhos. Ele fazia o papel de um relógio de sol. Em tempos de chuva não havia preocupações em cumprir com o estratagema do Marco. Era assim, assim!

Mas em dias de sol, ele determinava tudo!

 

"Onde vais"?

«Vou pôr o pote ao lume para fazer o caldo. Já lá vai o sol ao Marco»!

Era nessa Altura que começava o "Final Countown"!

 

Até parece que era nesse momento que as galinhas começavam a pensar no poleiro.

 

Quando eu tentava brincar mais um pouco, pois para a criançada havia sempre mais um pouco para as brincadeiras, lá vinha a voz autoritária da minha mãe:

"vai buscar as vacas, Ventor, pois já vai o sol ao Marco"!

E, ao Ventor, nada mais restava que obedecer, pois o "final countdown" chegara. Olhava e via que, realmente, o sol já ia ao Marco e estava tudo dito!

 

 

É assim que se vê Adrão do Marco D'Além

 

O Ventor gritava: «espera Apolo, espera»! Mas Apolo não lhe obedecia.

"Corre, Ventor, corre. Não posso esperar! Se espero morre tudo"!

«Oh, Apolo, amigo da onça, sobe os montes mais devagar»!

 

Mas Apolo não queria saber. No seu rang, rang, preparava-se para passar o monte do Gondomil, o horizonte mais alto frente a Adrão. Aí, o sol deixara de ir ao Marco, mas ia ao Alto (do Gondomil) e aí já nada havia a fazer a não ser acelerar.

As vacas estugavam a passada, as cabras desciam rumo à Barreira, mais apressadas, as galinhas iam-se empoleirando e,saindo dos telhados de Adrão, os fumos davam o sinal que tudo, em casa, acelerava também.

 

 

Ou assim! Todas as janelas ou portas de Adrão estão viradas para o Marco!

 

Quando o Ventor chegava a casa, já não se ouviam os có-có-ró-có-cós das galinhas. Vinha o sossego, o silêncio, o caldo quente, o calor do lume, o descontrair de mais uma caminhada, o terminar de mais um dia. O petróleo alumiava pouco e o melhor era dormir, pois a manhã seguinte não demorava e traria novo bulício.

Quando os raios de Apolo tocassem o Alto da Derrilheira, tudo iria recomeçar.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 22:24