Imagens que não mais se repetirão.

Quando nos primeiros anos da minha estadia por Lisboa e eu regressava à minha terra, encontrava naquelas escadas a cara sorridente de uma das minhas maiores amigas dos tempos de criança. A tia Bondeira. Do meio das suas rugas velhotas, espreitavam sorrindo sempre, a vivacidade dos seus olhos a observar-me, a pressa em levantar-se e o estender dos seus braços cansados na minha direcção e as palavras carinhosas. «Ventor, estás um moçatão»!

 

 

Aqui era a base! Um pouco antes, à esquerda, é o caminho para a Tasca do Carrasco e este local era a Av. principal de Adrão. Por aqui, praticamente, todos chegavam e todos partiam

 

Eu subia os poucos degraus das escadas e voltava-me, como se estivesse a jogar à macaca e ela ria-se com o jeito que nós, rapazes, tínhamos para ganhar às miúdas. Hoje posso dizer que as suas escadas eram as escadas da rebeldia! Era ali que nós nos formávamos todos os dias. Os homens desciam da tasca do Carrasco com um grão na asa e nós ouvíamos as suas palavras mais destemidas para a época e para a rapaziada que andava lá pelo Senhor da Paz, na escolinha, pela qual as nossas professoras tão bem velavam. Pela escola e por nós!

 

 

Ali era o ponto de encontro de toda a gente que se dirigia a Bordença e à Assureira de manhã e o ponto de encontro, no regresso, à noite. Ali as mães apressadas pegavam os filhos, pelo lusco-fusco, para os fazer regressar a casa e a expressão mais usada. «Oh, mãe, só mais um bocadinho». Enquanto a luz do dia iluminava tinha-se sempre algo para brincar.

 

 

 

O tio António e o Manel

 

As escadas da tia Bondeira estão tapadas por uma betoneira. Na tal pedra está sentado o Manel do Cachês e em pé, de olho no pasarinho, um velho passarinho, o tio António de Ramil

 

«Tá bem, só enquanto eu faço o caldo»!

Ali, naquele ponto de encontro, à partida e à chegada desses mundos, abraçavam-se na despedida e no reencontro. Comparável, só a Tasca do Carrasco, porque era lá que se bebia o último e o primeiro copo! Ali no fundo das escadas, havia e há, uma pedra que faz de banco. Ali, sentados nessa pedra, eu vi, pela última vez, alguns amigos. Naquelas escadas choraram-se tristezas e cantaram-se alegrias, porque por elas passavam todas as saídas e todas as chegadas, com trajecto pelo Eirado.

 

 

Só havia uma maneira de eu irritar a tia Bondeira. Ela tinha uma figueira (já não existe) que ultrapassava o muro da horta para o caminho e eu tirava-lhe alguns figos. Não se irritava por eu lhe tirar os figos, mas por eu os tirar e gozar com a minha habilidade. Era uma maneira de ela deixar de rir e costumava dizer que, se me der na gana, ponho quem quer que seja do avesso. Nem a tia Bondeira escapava e ninguém gostava dela mais que eu.

 

Agora vem o Carnaval. Em Adrão já não há quem brinque ao Carnaval. Não está lá ninguém e os que poderão estar, estão velhos e coxos. Mas era pelo Carnaval que eu desafiava os «Velhos».

Os velhos eram homens que se mascaravam com as máscaras mais feias que houvesse, vestiam-se de velhos com umas roupas velhas e rotas e colocavam nas costas umas marrecas de trapos e, à cintura, um pedaço de palha seca de centeio que seria queimado perto do fim da paródia. Eles entravam pelo meio das pessoas a arder (neste caso, na Eira de Além e as escadas eram as da tia Saloia) e em grande correria em direcção ao rio onde apagavam o fogo que transportavam.

 

 

Mas pior que isso tudo era baterem nos rapazes. Era da praxe! Quanto mais lombo os rapazes tinham mais pancada levavam e então a moda era fugir. Mas fugir só, não teria interesse, pois assim não haveria paródia. Era preciso também, procurar o confronto. Bastava chamar velho ao mascarado para se desencadearem as hostilidades e eu era especialista nisso. A correr ninguém me apanhava! Era esse o meu trunfo. Uma vez entrei pela casa da tia Bondeira dentro e saltei para a Horta escondendo-me, entre as couves-galegas, junto à figueira. Tudo andava à minha procura e cheios de medo porque pensavam que eu teria saltado o socalco muito alto que dava para o rego da veiga. Mas olhavam lá para baixo e não viam nada. Saltei o muro para o caminho e fugi em direcção ao Cabo do Eido e não havia velho que me apanhasse.

 

Outra vez havia um baile, à noite, e os velhos impuseram a sua vontade. Os putos, nessa noite, não dançariam. Três putos resolveram apedrejar a porta da casa do baile e ninguém saía lá de dentro. Até que paramos! Depois foi o bonito e o feio. Tivemos de fugir e de nos esconder. Mas fomos encontrados e o terror de todos os velhos foi em minha perseguição pelos Outeiros abaixo, mas eu não tinha medo de nada e entrei nos campos iluminados pela minha amiga Diana. Eu sabia que o velho era um medricas que tinha medo das almas do outro mundo e levei-o o mais longe possível. Quando se viu só, já depois da meia-noite, ele gritava pelo Ventor para aparecer que não lhe fazia mal. Mas o Ventor estava no seu domínio. Conhecia os campos como as palmas da mão e sabia que o adversário se borrava todo só a pensar nas almas do outro mundo. Aquela foi a maior vitória da minha vida. Gritei-lhe: «vai à frente que eu vou atrás de ti e assim os espíritos não te fazem mal»! E ele foi, parecia um cordeirinho! Que Deus te tenha lá no céu Manel.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 14:56