Vou responder aqui a uma pergunta que a nossa amiga Saloia, fez ao meu Quico.

Sim já conheci Travanca. Respondo a ela, ao mesmo tempo que informo as gentes jovens de Adrão, nascidas lá e por outros mundos, como era a nossa vida, a minha e a dos pais deles. Fui lá duas vezes! Há mais de 45 anos. Ainda era miúdo. À terceira vez, mais modernamente, tentei ir de carro, mas a estrada tinha sido estragada por fortes chuvadas.

 

Há muito, muito tempo, eu fui de Adrão a Travanca, cerca de duas horas a andar bem, pouco mais. Fui buscar uma égua que estava presa na área florestal de Travanca. Era eu e mais dois amigos, um actualmente em Paris e outro, em New Jersey. O dono da égua estava nesse tempo em França e agora estará a recordar-se da nossa vida, junto ao Senhor da Esfera.

 

Saímos muito cedo de Adrão e fomos ver romper o dia já próximo do Mezio. Levávamos uma égua e íamo-nos revezando pelo caminho, mas eu quis ir sempre a pé! Iria subir à serra de Soajo, à Pedrada, pelo lado oposto. Chegamos a Travanca e fomos pagar a multa da prisão da Rola. Eram 75$00 da multa e depois mais um quanto por dia pela alimentação da égua e ela já lá estava há bastante tempo. O mais velho, o Manuel de Sistelo tinha vindo da América e não a conhecia, mas prometeu ao amigo, o ti Eduardo da Bondeira, que a ia buscar.

 

Nós, os putos, fomos com ele para ele não ir só. Fazíamos-lhe companhia e éramos nós que iríamos identificar a égua. Mal a vi conheci-a logo e ela a mim. Pagamos, bebemos uns pirolitos na casa do Guarda. Alguém se lembra dessa bebida fantástica de gostosa?

 

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Travanca está encaixada nessas encostas, que se vêm de S. Bento, Arcos de Valdevez

 

Depois fui à cerca do guarda e coloquei um cabresto na Rola, e como ela me conhecia, não foi difícil montá-la e tudo correu bem até ao cimo da montanha, do lado esquerdo do rio Ramiscal. Depois foi o diabo! A Rola viu as companheiras e amigas na encosta mais abaixo, guina de repente para a esquerda e desata num galope frenético. Impossível manter-me em cima dela. Malhei no poulo duro e fui rebocado até à entrada nas urzes.

 

O Manuel do Sistelo, gritava-me para largar a égua senão ela desfazia-me todo ao entrar nas urzes, mas eu não a larguei. No momento de ela entrar na mata das urzes que descia até ao Ramiscal, ela abrandou para circular uma grande moita de urzes e eu tive tempo para dar uma volta ao cabresto num torgo velho de urze. A Rola não podia fugir mais!

 

Mas não ia ficar por ali! Com os braços arranhados de fazer esqui no poulo, levei a Rola pelo cabresto até à Corga da Vagem. Ali prendemos as éguas numas urzes e fomos almoçar, já tarde, presunto com pão e água (as águas divinas da serra de Soajo, no caso, a nascente da Corga da Vagem). Depois virei-me para o Manuel do Sistelo e disse-lhe: «vamos tirar os arreios à Briosa e colocá-los na Rola, que ela vai-me levar daqui até ao Alto da Pedrada, sempre a galope».

 

Assim foi. Ele disse-me para ter cuidado senão ainda ficávamos sem a égua e sem os arreios. Mas o cuidado era chegar rapidamente ao Alto da Pedrada! Cheguei lá acima e fui dar a volta ao marco geodésico e, já no regresso, de lá de cima, a Rola vê a Briosa lá em baixo, relincha e começou uma correria frenética outra vez. Ela galgava carqueja e rochas e eu estava a ver que aquele ia ser o meu dia de sorte ou de azar. Mas aguentei firme, montanha abaixo, até 100 metros deles. Aí a Rola meteu todos os travões e eu voei pelas suas orelha fora, caindo no chão como um saco de areia. Segurei-me e fui de rastos mais uma vez até junto da outra.

 

O presunto que tinha comido fazia todos os possíveis para se manter quieto e sereno e a custo lá conseguiu. Depois descemos toda a serra até Adrão, na paz dos alazões. Foi assim um dia que nunca mais esqueço, a minha primeira ida a Travanca. Da segunda vez que lá fui, fui sozinho, à procura de uma toura que nos desapareceu e que nunca mais vimos. Num dia de muito calor, descobri-a junta com outras e as companheiras dela um pouco mais afastadas e não quis incomodá-la a levá-la para junto delas porque estava perto, ela estava a remoer, descansando.

 

Não liguei. Abracei-me a ela junto ao Fojo do Lobo e depois de as ter controlado, regressei a casa. Dias mais tarde não a encontrei e procurei tudo, em todas as aldeias em volta da serra de Soajo. Ou o lobo a matou ou, então, foi roubada e levada de contrabando para Espanha. Nessa altura constou-se que houve por lá uns larápios que roubavam gado.

Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 11:59