Lugares de Sonhos

Mês de Maio ...

14.05.12

 ... em Adrão.

Os meus meses de Maio, em Adrão e também em Paradela, agora só fechando os olhos e olhar no meu interior as lápides gravadas nos cantos do meu cérebro. Na prática é assim com tudo.

 

 

Um dos meus símbolos de Adrão - a Giesta. As nossas maias

 

Por Adrão, dependia do tempo, pelos fins de Abril e Maio dentro, havia um perfume intenso! Os cheiros, penetravam pelo nosso nariz, dando origem a um "must", que nenhuma perfumaria consegue apresentar. Desde os "estercos" originados pela fermentação dos estrumes, originada pelas dormidas dos animais e que, pela noite dentro, iam depositando o resultado das suas necessidades fisiológicas, catalisadas pelos calores dos seus corpos, até ao cheiro da terra originado pela evaporação das águas da chuva, especialmente trovoadas e, pela passagem dos cheiros intensos que saíam das belas flores que cresciam por todo o lado, misturado com aquele cheiro que resultava da erva da semeia que se deixava crescer para alimentar as vacas que puxavam os carros de bois e os arados que depois, rasgavam as terras.

Era assim por todo o lado. O Eido, as Brandas de Bordença e da Açoreira, retribuíam-nos, com belos perfumes, aligeirando o cansaço originado pelo trabalho. A maior alegria que eu tinha, nesses tempos, era conseguir dar às vacas que trabalhavam, uma boa ração da erva de semeia ainda verdinha e levá-las beber ao rio e, o maior problema que eu tinha, quando era puto, era o meu pai ralhar comigo quando eu retirava os grilos do rego deixado pelo arado, para as vacas não os pisarem.

Recordo-me perfeitamente do meu pai me gritar, dizendo: "as vacas ainda te pisam por causa dos grilos, Ventor"!

  

 

 Carro de bois, na ilha de Santa Maria, nos Açores

 

Hoje, recordo tudo o que o trabalho e as brincadeiras me proporcionavam. As alegrias, o cansaço, os cheiros, o chiar dos eixos dos carros de bois pela Veiga abaixo, os aros de ferro que protegiam as rodas a bater contra os caminhos pedregosos, os esforços que os animais faziam a segurar o carro nos sítios íngremes, ou a puxá-lo nas grandes subidas dos caminhos.

 

Recordo-me bem como, então, os putos de Adrão gostavam de pedir boleia sem levantar o polegar, como se faz hoje por essas estradas. Seria uma das coisas melhores da nossa vida de crianças andar à boleia, nos carros de bois. "Podes vir comigo, rapaz, para cá, vens no carro". Estou a recordar-me do ti Manuel Rego que sempre me dava boleia. Uma vez, no Carril, ele vinha para casa, com as vacas pela soga e o carro e eu vinha do Lume da Leira. Aproximei-me do carro, por trás e, confiante que dali não viria nenhuma nega, saltei para o carro, muito caladinho, para o surpreender quando ele chegasse ao Eirado. O pior foi que as vacas assustaram-se com o meu salto e iniciaram uma corrida doida e o ti Manel, Deus o tenha no céu, também assustado, saltou para o lado para o carro e as vacas não o atropelarem mas, era no sítio mais estreito do caminho e o eixo, de passagem, ainda lhe raspou uma canela.

 

Toda a gente de Adrão me queria crucificar, até a minha mãe mas o ti Manel Rego, foi a única pessoa que me defendeu. Ele e eu, julgamos que as vacas não fugiram por minha causa mas, talvez, por causa da mosca. Pode ter havido coincidência com o meu salto e com a ferradela da mosca numa das vacas. Elas eram muito mansinhas. 

Mas nunca me esqueço que, a única pessoa prejudicada pela minha acção, se fui eu, foi a única pessoa a defender-me.

 

 
O arado egípcio. Tal como em Adrão, já os egípcios, milhares de anos atrás, aravam a terra para deitar as sementeiras
 
Os estercos transportados nos carros de bois, eram colocados em montinhos espalhados nas lavouras. Depois, eram espalhados com uma forquilha e, por fim, lá ia o arado rasgar a terra. Enxadas no ar, a despedaçar os grandes torrões deixados pelo arado, grilos em fuga e as sementeiras iniciavam-se.
Era aí que eu começava a estudar o problema! Quando via a minha mãe com o milho no avental, metia a mão, enchia-a e espalhava o milho o melhor que podia. Então eu pensava que, poupar o milho, não era boa ideia. No espaço de cinco grãos de milho, seria melhor meter 10 ou 15, pois assim, poderíamos obter muitas mais espigas. Mas, com a caminhada do seu crescimento, vinha a monda, o desbaste, o arranjar do espaço e eu danava-me de não me deixarem realizar a minha experincia de criança.
 
Recordando os meus maios, meti aqui um arado egípcio tentando assim, mentalmente, prestar uma pequena homenagem ao Germano. O Germano era o nome de guerra de um elemento do PCP, esquecido pelos seus camaradas, segundo ele me disse, após a queda do Muro de Berlim e das lutas intestinas desencadeadas no partido de Álvaro Cunhal.
Não me esqueço do que o Germano me disse numa pequena conversa que se tornou bem grande, onde me falou do seu tempo de criança, quando só calçou os pés aos sete anos e, aos 12 anos se pirou da sua "Adrão", ali para os lados da serra da Estrela, de onde veio para Lisboa, passando a partilhar, desde então, dos ideais comunistas.
 
Porquê o arado egípcio, então? Porque o Germano que já tinha tido problemas cardíacos, disse-me que tinha dois sonhos na sua vida! Agora, arredado dos problemas do PCP (Partido Comunista Português) e ter adiado, no Hospital de Santa Maria, o final da sua caminhada, tinha agora de vencer o tempo que os médicos lhe deram de vida, cinco anos de que só sobravam quatro. Só pensava dedicar-se a estudos demográficos sobre a margem sul do Tejo e,  sobre o Egipto, especialmente, a agricultura e, já teria pesquisado o suficiente para dar uma varridela em tudo o que nos contavam do Egipto, especialmente, da sua agricultura e do seu sistema de regas a partir do rio Nilo e demonstrar ao mundo que os egípcios não tinham sido esclavagistas.
 
Quem me dera estar enganado mas julgo que o Gemano já terá sido levado à presença do Senhor da Esfera. Se estiver enganado, assim espero, ainda terei oportunidade de um dia, ver por aí um estudo, sobre a agricultura dos grandes Faraós.
Talvez assim, observando os arados egípcios e os lagos artificiais, junto às margens do rio Nilo, me ajude a esquecer dos nossos Maios e dos nossos regos, como o da Açoreira.
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Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 22:25

A Serra de Soajo

09.05.12

Quando olho para trás, recordo e vejo a minha serra - a serra de Soajo!

Por isso, recordo e relembro o meu berço. O meu berço de granito! Recordo que, nesse tempo, não sabia quem era David, nem sabia quem era o Golias mas, relembro que, então, sem conhecer esses dois, eu também tinha uma funda! Tinha uma funda mas não tinha nenhum Golias para abater! Porque não tinha filisteus nem israelitas, em armas. Não tinha desertos a defender nem palácios com colunas de mármore, como Gaza! Tinha casas simples de granito onde o gado era rei! Tinha um Éden feito de flores simples, onde predominava a flor da Erica que, na sua pintura rosa, nos inspirava à glorificação dos deuses.

 

Subia da Açoreira pelo Barroco, com as minhas vacas que adoravam ir deitar-se, entre os fetos, no Poulo da Chãe do Ruivo. Comiam carrascas e ervas, torciam ao Poulo da Fraga, dirigiam-se pela encosta da Centeeira, comendo ervas e carrascas rosas até atingirmos esse Poulo de fetos e, pelo calor das manhãs quentes, nesse monte ensolarado, elas deitavam-se entre os fetos. Atrás delas, eu observava as carrascas rosadas por onde pululavam as abelhas, na azáfama de apanhar o néctar para fazerem o mel e, entre as flores rosadas, subia até mim a melodia daquela orquestra que nunca mais esqueço.

 

No Poulo da Chãe do Ruivo, as minhas vacas descansavam, entre a sombra dos fetos e eu subia até á água que brotava na tapada do ti João Perricho onde comia o meu bacalhau, presunto ou chouriço com pão e, voltava ao tal poulo, onde fazia festas às minhas vacas deitadas que, começavam a levantar-se e espalhavam-se, monte acima, enquanto eu, com o meu cinto e umas pedras arredondadas, utilizava a tal funda, fazendo bater a pedra no poulo que, depois, partia a toda a velocidade fazendo um "róóóôôommmmm" tão intenso que parecia os aviões que, nos seus voos experimentais, tal como eu, de vez em quando, subiam as minhas montanhas lindas.

 

 

Belezas de sempre, pelas minhas Montanhas Lindas 

 

As imagens que tenho desses tempos e desses troços das minhas caminhadas, são as mais lindas da minha vida e estão gravadas no meu cérebro tal como as imagens da gruta de Altamira estão gravadas nas rochas. Imagens lindas como essas da Centeeira florida de cor rosa, só encontrei na Serra do Avô. Depois disso, apenas voltei a ver carrascas floridas mas, nunca mais espaços abertos, rosados, como nesses tempos.

 

É recordando que me apetece falar das coisas. Falar das minhas vacas, das ovelhas da Açoreira, das ovelhas da tia Custódia, pela encosta do Gondomil cheia de urzes floridas das frases de então, "Luis, vira-me as ovelhas para baixo", da raposa a tentar apanhar uma ovelha entre as urzes floridas e da sua atrapalhação quando eu já estava em cima dela, quando já ela tentava apanhar o pescoço à ovelha. Tudo isto nos tempos em que eu glorificava a corrida, nos montes mais lindos do meu mundo.

 

Desses montes da Açoreira, eu olhava, do outro lado, lá por cima de Adrão, o Alto da Derrilheira e, então, limitava-me a pensar que, um dia, chegaria lá. Eu adorava os montes da Açoreira mas, com o tempo, já mais crescidinho, passei a levar as vacas para a Chãe do Boi e, quando o meu amigo Apolo aquecia as Primaveras, as vacas começavam a ficar fora e a subir até à Naia, depois até ao Muranho e por fim, já verão fora, a Corga da Vagem, o Curral do Pai, ... Acabado de sair do berço, conquistei a minha serra, palmo a palmo, metro a metro, agarrado ao rabo das minhas vacas! E, para mim, essa conquista, foi feita nos nossos trilhos da Glória, onde os deuses me falavam por baixo dos meus pés.

 

Com o tempo, aprendi a recordar essas caminhadas fabulosas e a nunca esquecer as belezas desse meu mundo.

Numa determinada altura aceitei que as serras de Soajo e a Amarela, fossem absorvidas por esse nome colectivo de Parque Nacional da Peneda-Gerês. O Parque tinha de ter um nome e era aceitável que fosse utilizada a lógia orográfica das serras que o compõem - Peneda-Gerês!

Porém, não aceito que uma cambada de pilantras, armados em sabichões, passem a chamar à serra de Soajo, serra da Peneda! Cada macaco no seu galho!

 

Fazemos parte de um país habituado a deturpar tudo. Até a porcaria de uma telenovela, produzida e realizada por Nabos, se propôs subverter os meios para atingir o seu fim.

Quando diziam, "vamos para a Peneda", apenas queriam dizer, vamos para os Arcos! Quando diziam que iam para a serra da Peneda, queriam dizer que iam para a serra de Soajo. São gente de tão fraca índole que até descobriram que os lobos iam aos poleiros às galinhas! Porém, podem inventar tudo, menos outro nome para a serra de Soajo! Podem caminhar nas fantasias da incompetência, sempre que queiram, mas não admito que troquem o nome à minha serra.

 

 

A minha companheira de caminhadas pela serra de Soajo, nos meses de Agosto

 

Estou farto de doutores e engenheiros pindéricos, cheios de palas. Colocaram-lhe palas nos olhos e só olham em frente, esquecendo-se dos lados e da rectaguarda. Conheci muitos assim! Com o canudo mas, com uma pobreza de espírito atroz que me parecia terem apenas serradura na cabeça! Não é por acaso que o nosso país tem andado à deriva e parece, assim continuará, eternamente.

Podem governar mal. Podem encher-se à custa do povo e em nome do povo. Se o povo deixa, nada tenho a ver com isso e se entram sem nada e todos saem bem abastecidos, como dizia uma noite destas, o Manuel Monteiro, isso só acontece porque o povo, na sua boa fé, lhes permite que assim seja. Contra isso não posso nada! Todos esses pindéricos podem fazer tudo mas, junto de mim, não podem trocar o nome à minha serra!

 

Já caminhei em serras com quase o dobro da altura da serra de Soajo mas, a Pedrada, será sempre, para mim, o meu Outeiro Maior, tal como vem nas cartas militares.

Há muita gente que chama a Adrão, a terra da fome, do frio, da escravatura ... De facto foi uma terra que não foi capaz de dar de comer a todos os seus filhos, tal como todas as terras de Portugal mas, para mim, Adrão conseguiu o milagre de nunca me pôr contra ela. Adrão teve o dom de me fazer esquecer tudo o que tive de mau por lá e apenas registei tudo o que por lá tive de bom! O mesmo me aconteceu com Moçambique. Cheguei, olhei e gostei. Quase não me recordo de nada que tenha sido mau. Limitei-me a encostar a tristeza num canto do sótão e esquecê-la.

Quando a minha vida não corre bem, só há um lamento que não me larga. É este: "se calhar, nunca mais vou conseguir subir à Pedrada"!

 

 

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Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 13:17

Camihar por Adrão

12.02.12

Tenho caminhado por Adrão! O Senhor da Esfera gosta de me ver por lá e, então, vou sonhando e caminhando pelas minhas Montanhas Lindas e conversando com a minha gente.

 

Consigo, sonhando, penetrar no passado, mesmo que todo esfarrapado e, tantas vezes sem sentido. Mas, mesmo não tendo sentido, vivemos esparsos pedaços da vida passada, fazendo associação de imagens que só podem acontecer em sonhos. Miscelâneas de pedaços da vida retalhados do passado, misturados com coisas do futuro, relativamente a esse passado.

 

No entanto, as imagens que consigo obter nesses sonhos, quando a minha gente me aparece, quer viva, quer já falecida, são mesmo reais!

 

Um resumo dos meus dois últimos sonhos por Adrão. Daqueles que ficam, que não vão para as calendas.

 

 

Flores para todos os que estiveram comigo, em sonhos

 

Fui fazer uma visita à minha gente e, quando cheguei, tinha as pessoas em casa a fazer o almoço, mas nunca as vi. Sabia, apenas, que estavam lá à minha espera e a tratar do almoço! Mas ao chegar ao sítio da figueira da tia Bondeira, observei a Tasca do meu amigo Carrasco, com ele à porta, a fazer-me sinal com o braço, para chegar lá.

 

Cheguei lá, ele estava só e fez-me um pedido. "Ventor, não sei se sabes mas vou tentar ser eleito para a Junta de Freguesia de Soajo. Preciso da tua ajuda".

«Em que raio posso ajudar se me vou embora e nem tenho direito a votar cá»!

"Quero que peças à tua madrinha para desistir da corrida".

«A minha madrinha também vai tentar ser eleita?»

 

Lá fui eu ao Eirado para falar com ela e a resposta foi a que eu esperava. "Não desisto! Diz a ele que não desisto e quem vai ganhar sou eu"! Vindo da janela da casa de meus pais, ouvi, a voz da Gisela a dizer-me que o almoço estava pronto e ia ser posto na mesa.

 

Virei-me para ir ao Carrasco dar a resposta da minha madrinha, mas vinha de Outeiros, a tia Rosinha Félix, cheia de pressa. «Para onde vai, tia Rosa, com essa pressa toda»?

"Vou com pressa porque tenho de ir aos Arcos tratar de uns papéis para voltar para a América".

«Já chamou o táxi»?

"Avoestavô"! (frase que eu ouvia em Adrão e nem sei como se escreve)! "Chamar um táxi? Estás maluco. Vou a pé"!

«Eu vou ali ao Carrasco e depois levo-a aos Arcos. A pé, nunca mais lá chega»!

"Tu não serás capaz, mas eu sou"!

 

A tia Rosinha Félix, deu-me o braço e partimos os dois de braço dado a dançarmos ou a fazermos por isso. Perguntei-lhe o que pensava das eleições para a Junta de Soajo e disse-me que não queria saber disso para nada. Que tinha de voltar para a América e não tinha tempo a perder com isso.

Resumindo. Não dei a resposta ao Carrasco, não fui almoçar, não levei a tia Rosinha Félix aos Arcos. Acordei, quando ela e eu a dançávamos, de braço dado, com o Carrasco a ver da porta da Loja.

 

Mas tive outro sonho!

Desta vez, sonhei só com os meus pais e um indivíduo muito feio que me acompanhou, sempre atrás de mim, desde os carvalhos do ti Valente até ao Carril.

Então vejam só isto!

Era um mau presságio ter aquele tipo atrás de mim. Eu tinha saído buscar comer para meu pai e minha mãe que tinham ficado em Paradela a plantar batatas.

Mas nunca mais voltei! Quando levava uma grande sacada de comer, ao chegar aos Carvalhos do ti Valente, resolvi voltar para trás, pois já tinha passado tanto tempo e ainda com um gajo nauseabundo e um sorriso diabólico pela frente, achei que era o melhor. Tanto tempo depois, já não estariam a plantar batatas, com certeza. Voltei e entrei em casa, já de noite. O meu pai, estava deitado na cama e levantou-se de pronto, ficando sentado a perguntar-me o que me tinha acontecido pois nunca mais voltara. No sonho, alterei a casa! Por trás da porta, estava a minha mãe deitada numa cama individual e com um olho todo entrapado por causa de uma infecção.

 

Conversei com eles e acordei. Estive com o meu pai e a minha mãe, tal e qual como eles eram. Só que nunca na minha vida, vi a minha mãe com um olho empanado e uma cama individual num espaço que não existe.

 

Mas gosto de ver as minhas gentes, mesmo a sonhar!

 

Estou farto de tentar interpretar os meus sonhos. Já li livros sobre isso e fiquei a saber o mesmo, acabando por me deixar disso. Mas vou sonhando e vendo o que me é apresentado nesses sonhos, ficando sempre com vontade de matutar neles.

 

 

 

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Em Adrão também há flores lindas. São elas que embelezam as montanhas do Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 11:49

BOM NATAL - Foi há 42 Anos

23.12.11
Faz hoje 42 anos! Não estava, em Adrão, estava em Vila Cabral!

 

Em Vila Cabral, sonhava com tudo que deixara para trás. Agora continuo a sonhar com tudo que fui deixando para trás. Sonho com os que nos deixaram e sonho com todos os que fui perdendo.

Ontem falei ao telefone com a minha irmã e estava toda contente com umas pantufinhas que lhe mandamos feitas de pele de carneiro alentejano. Na conversa do quente e do frio, ela acabou por me falar do frio que passávamos em Adrão, noutros tempos e noutros invernos e, por fim, diz-me isto: "como conseguimos sobreviver àquele frio todo? Ainda há dias vim de lá toda gelada, vi-me e desejei-me para tirar aquele frio dos ossos. Ai que terra aquela"!

 

Pois é! Que terra aquela que nos levou todos a abandoná-la! Mas, que terra aquela que não sai do nosso espírito e possui um íman poderoso que nos puxa para trás!

 

Recordo-me dessa terra, Adrão, como tudo que houve de melhor na minha vida. O íman partiu-se mas mantém umas linhas de força magnetizadas que continuam a puxar. Linhas que não vemos mas que nos continuam a ocupar o cérebro permanentemente e a rebocar-nos até lá.

Nunca encontrarei melhor calor que o que os canhotos da Açoreira a arder, no borralho, na véspera do Natal. Talvez essas linhas de força nunca cheguem a acabar pois nós estamos vivos e, enquanto vivos, o passado faz parte dessa vida e ele não morre!

 

Nem o passado, em Adrão, nem noutro lado qualquer.

 

 

Um dos meus presépios preferidos, num recanto da Amadora

 

Tal como Adrão, há outros locais que usam as mesmas linhas de força e me puxam!

Neste momento lembro-me de um passado diferente. Lembro-me de Vila Cabral, no Niassa, Moçambique, já vão 42 anos e todos os anos, pelo Natal, este dia está sempre na minha cabeça. Em Adrão, não fazíamos a Árvore de Natal. Eu nem sabia o que isso era, enquanto lá estive. Até aos 15 anos! Este ano não fazemos a Árvore de Natal. Vou passar o Natal um pouco à moda de Adrão - sem Árvore!

 

Mas, 42 anos atrás, eu travei a guerra do pinheiro, da árvore de Natal! Isso já fez anos nos dias que passaram. 42 anos atrás, no dia de hoje, todos para quem mandei os pinheiros, já tinham a Árvore de Natal feita.

 

No dia correspondente ao de hoje, com quarenta e dois anos em cima, foi outra conversa. Tínhamos a nossa árvore feita e eu já tinha estado junto dela. Toda a zona de Vila Cabral estava sob uma forte trovoada. Eram raios que cruzavam os céus e pareciam querer incendiar tudo. O ribombar dos trovões era infernal. Estávamos embrulhados num mundo de fogo e som! Espreitava pela janela do Posto de Rádio e preparava-me para desligar os emissores. Do meio dos raios e do barulho do ribombar dos trovões, explodiu um poderoso morteiro algures à nossa volta!

Mau! Isto não tem nada a ver com os trovões! Bom! Bom! Bom! Era longe mas parecia perto! Eram bom-bons a que não estávamos habituados.

Estou lixado! Se desligo os emissores perco o controlo desta coisa toda, se os mantenho ligados, os relâmpagos pegam-lhes fogo e fico sem eles! Também naquela guerra, não haveria grande necessidade de manter os emissores ligados. Desliguei tudo. O som dos trovões e a morteirada ouvia-se como se fosse quase em cima de nós!

Foi essa a sensação dos nossos vizinhos do lado, a Companhia dos Comandos que se partiu ao meio para vir em socorro da Força Aérea e foi essa a sensação de uma companhia que chegara do mato ao Batalhão de Vila Cabral, uns já a dormir e outros deitados à espera do João Pestana. O Capitão que comandara essa companhia, já há algum tempo, nas montanhas de Vila Cabral, saiu do Café Planalto a correr, entrou nas casernas dos seus homens e gritou: "a Força Aérea está a ser atacada, preparem-se para o combate"!

 

Alguns daqueles homens atravessaram a cidade de Vila Cabral ainda a vestirem-se, nas viaturas, prontos para empunharem as G-3's. A rodagem das viaturas nas ruas de Vila Cabral acordou toda a gente que, espantados, ouviam os morteiros no ribombar da trovoada tormentosa. Saí do Posto de Rádio, em calções, em sapatilhas de praia, camisa fora das calças e fiquei logo todo encharcado, para tentar ajudar os comandos a ficarem o mais bem instalados possível e, de seguida, ajudei a arrumar as viaturas do Capitão X (não recordo o nome) que vinha em nosso socorro.

 

Já nós tínhamos percebido que o ataque à morteirada era para os lados de Nova Madeira e todos vaticinávamos a hipótese dos turras, nossos amigos de estimação, se aproximarem de nós.

Voltei ao Posto de Rádio e atendi o telefone que não parava de tocar. Acabei por atender várias chamadas de mulheres da cidade de Vila Cabral em que as palavras de ordem principais eram, "aguentem-se". "Vocês estão a ser atacados! Aguentem-se, se vocês não se aguentarem estamos perdidos"! Era o que estava em vigor na ordem do ... da noite!

 

A minha lábia psicológica funcionava tentando acalmar aquelas senhoras que nos ligavam. Já bastantes tinham telefone, na altura, porque não terminavam. Algumas voltavam a ligar de seguida, mas há uma chamada que eu nunca mais vou esquecer. Esta chamada ou veio da esposa do Governador Civil, o então Coronel Melo Egídio que Deus já levou ou da cunhada, não me recordo qual delas, mas isso é irrelevante, relevante, foi a palavra "Bolo-Rei"!

 

 

O menino do presépio, em cima, que creio terá sido roubado. Não tenho a certeza se foi este. Há malta que rouba tudo, é pena é não serem apanhados, metidos entre duas rabanadas e serem dados a comer ao cão Cérbero que guarda as portas do Hades (Inferno)!

 

"Aguentem-se que se Deus quiser, as mulheres de Vila Cabral irão fazer para vós, amanhã, o melhor Bolo-Rei do mundo"!

 

Agradeci, pedi-lhe para ir dormir descansada e quando pousei o telefone, disse para os que estavam junto de mim. Amanhã vamos ter Bolo-Rei e tudo, só espero que não venha com morteirada!

 

Mas no meio da trovoada, da morteirada que caía sobre os nossos amigos cabo-verdianos e outros, de Nova Madeira, era criado um espírito de Natal que, na verdade eu ainda não tinha conhecido. Estava farto de árvores de Natal, de rabanadas, de arroz doce, de bolo-rei, de coisas boas e, nesse instante, não lembrava nada disso. Foi o medo, sem motivo, daquelas mulheres, o seu incitamento à resistência, a palavra bolo-rei que nos envolveu num espírito de Natal que nunca esquecerei.

 

Para todas elas, sonhando ou acordado, para todas aquelas que ainda resistem, deixo aqui, em mente, os votos  de  um Bom Natal para todas, cheio de tudo de bom e com muito Bolo-Rei, tal como deixo para toda a minha gente de Adrão!

Bom Natal Amigas e Amigos de Sempre.

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publicado por Ventor às 19:21

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